O governo do Dr. Miguel Albuquerque apostou tudo na sua prosaica fidelidade ao governo de Passos Coelho. Esta abordagem que reflecte um relacionamento sumptuosamente intimista, não tem nenhuma utilidade prática para a Madeira. É mesmo de profunda inutilidade e completamente vazia de conteúdo estratégico. Um traço cada vez mais evidente deste governo regional. Acresce a esta surpreendente atitude, outra igualmente grave: uma descoordenação profunda, acompanhada de um deserto programático conduzido por governantes que deambulam entre o “caviar e a sardinha”. O resultado está à vista de todos: caem promessas, adiam-se decisões, multiplicam-se as desculpas... O estabelecimento de o mínimo de normalidade democrática não chega para não nos incomodarmos com o andamento da governação. Até porque os sinais de promiscuidade entre partido e governo são tão evidentes que o fantasma do aparelho tomar conta da governação é um cenário cada vez mais realista. A saída compulsiva, e extemporânea, do então Secretário da Saúde, os ataques ao actual Secretário dos Assuntos Parlamentares, consentidos pelo Dr. Albuquerque, e a pressão do Partido junto do Secretário da Economia e Turismo são muitos sinais que condicionam a implantação da serenidade para que o PS-M sinta a confiança necessária no percurso de consensos que estamos a tentar construir, num diálogo que consideramos necessário para melhorar a vida dos madeirenses. Desafio, por isso, e em primeiro lugar, o Presidente do PSD-M a se concentrar na coordenação governativa para que a defesa do interesse dos madeirenses seja mais facilmente obtido. Por outro lado, este governo,ainda não mostrou um caminho consistente, baseado em pressupostos sólidos, que coloque em destaque a importância do princípio da subsidariedade e do respectivo processo autonómico. Perante uma táctica truculenta, insultuosa e brejeira do anterior governo, este governo responde com um zero redondo, embora recauchutado no plano das atitudes democráticas. O PSD-M no governo tem evitado travar a luta pela afirmação do interesse da Madeira. Uma batalha histórica a que muitos madeirenses, de vários quadrantes políticos, se têm dedicado e que possibilitaram conquistas autonómicas de importância inequívoca e que nunca deviam ser alienáveis. Contudo, e lamentavelmente, os estragos deste trajecto que fragiliza a autonomia são já muito evidentes, pelo que recomendo uma inversão completa desta sonolência que arrasa as expectativas legítimas da dos madeirenses. Num momento necessário para enterrar definitivamente um negro período de desconsideração e atropelos grosseiros aos interesses dos cidadãos da Madeira, seja por esgotamento da capacidade reinvidicativa decorrente da falência da Região e tudo o que isso significa, seja por estamos confrontados com o período da autonomia mais confrangedor de toda a nossa democracia, consequência do ataque da direita nacional aos interesses dos cidadãos da Madeira, somos brindados com um governo que se perde em salamalecos com Lisboa. Mas é cada vez mais importante que este alerta tenha eco na sociedade madeirense e não apenas a comunidade política. Nunca como agora foi tão importante um consenso alargado sobre a capacidade de decidir os nossos destinos e o nosso empenho em ponderar, sem perturbação externa, as opções que mais nos interessam. Mas como afirmei, há já abundantes cacos que devem ser recolhidos rapidamente: a cedência inqualificável nas responsabilidades do estado no custo com a continuidade territorial são um exemplo ímpar do precedente grave aberto por este governo; a hesitação na reclamação da receita da sobretaxas de IRS cobrada na Região, à semelhança do que já fez o PS-M mas também “o outro” PSD-M, que não este que governa a Região, demonstram uma atitude mansa e incongruente com a tradição autonomista; a cedência a Lisboa na definição das condições para a concretização de uma linha ferry de pessoas e mercadorias marca também um sentimento de captura da alma madeirense pelo poder centralista; a visão seguidista em matéria de gestão da dívida impede avultadas poupanças ao orçamento regional e compromete os serviços básicos da saúde e educação ; a recusa em exigir que os 250 milhões de de euros da lei de meios seja, como foi aprovado pelo governo do PS, da responsabilidade do estado, aumenta a dívida ou empobrece os madeirenses. O PS-M não se desvia um milímetro destes interesses dos cidadãos madeirenses, mas ajudava muito que o PSD-M se reencontrasse com a defesa da Madeira e não tivesse vergonha da alma de ilhéu que tantos lutaram para engrandecer.

Carlos Pereira Presidente do PS-Madeira