Será que cada um de nós conhece e utiliza intencionalmente a sua zona de conforto? Tem consciência das vantagens e desvantagens que a mesma proporciona?

Tem noção se esta se tem mantido ou modificado ao longo do tempo, por exemplo em função da alteração das suas capacidades e competências, ou do próprio contexto? Sabe se essa estabilidade ou modificação foi planeada ou simplesmente fruto da inércia ou de “fatores aleatórios”?

É que para evoluirmos temos de alargar os limites mínimos e máximos. Para que isso aconteça, muito provavelmente, em certas alturas e momentos temos de sair da nossa zona de conforto (do quadro de referência que utilizamos, das nossas rotinas, do que fazemos ou deixamos de fazer, da forma como nos relacionamos com os outros, etc.), temos de correr riscos, expormo-nos, apresentar e discutir ideias e propostas, tomar posições, fazer novos investimentos (não apenas económico-financeiros, mas também, emocionais, educacionais, culturais, físicos, etc.).

Contudo, não basta ter vontade e querer, é preciso saber quando sair. É necessário planear e calcular os riscos, por exemplo, em função dos objetivos visados, dos meios e do tempo que dispomos. O aventureirismo ignorante ou irresponsável e a desonestidade são, em boa medida, os grandes responsáveis pelas disfuncionalidades com que diariamente nos confrontamos nos mais variados âmbitos da nossa vida privada e profissional.

Em abono da verdade também não nos devemos esquecer que a zona de conforto de alguns é a intriga, a inveja, a guerrilha, o boato, o anonimato por detrás do teclado…É assim que se sentem realizados… Há que reconhecer que, mesmo para a “desonestidade de alto nível”, é necessário ter grandes capacidades e competências. É pena que estas não sejam utilizadas de forma mais produtiva…

A um outro nível, a título de exemplo, na competição desportiva, temos de saber (e treinar, embora isso seja o mais difícil) se, com determinados adversários, os devemos forçar a sair da sua zona de conforto, pois isso irá fragilizá-los, ou se pelo contrário queremos que eles se mantenham lá o maior tempo possível, pois quando arriscam sair ou a isso são obrigados, normalmente superam-se utilizando “na plenitude” as suas capacidades e competências.

Reiteramos que na Educação e no Desporto (e em tantas outras áreas), se não sairmos da zona de conforto (por exemplo, os professores/treinadores e os alunos/desportistas), é bem possível que estejamos a condicionar e mesmo a impedir o completo desenvolvimento das capacidades e potencialidades de cada um.

Os dirigentes da escola e do clube, os professores e os treinadores, os alunos e os desportistas, sem esquecer os encarregados de educação, a comunicação social e o público em geral, como é que lidam com a inovação (uma certa forma de sair da zona de conforto individual e coletiva)? Como lidam com a procura de novas respostas para os problemas que se levantam?

Porque será que o insucesso é social e culturalmente mais penalizado quando se tentou inovar do que quando se fez o que é habitual?

Por mais que coloquemos a cabeça na areia ou assobiemos para o lado e tentemos sobreviver na nossa zona de conforto, o mundo muda e continua a mudar. A maioria das respostas que utilizámos no passado já não são as mais adequadas para resolver os problemas de hoje e muito dificilmente ajudarão a “enfrentar o futuro”. Antes pelo contrário … por isso …

Hélder Lopes, Professor da Universidade da Madeira