1. Entre todas as misérias que há por todo o lado, salta-nos à vista que o querer da Igreja Católica deve ser sempre o bem das pessoas em geral. Muitos acham que não, estão no seu direito. Mas, apesar de tudo, o seu partido é o povo, especialmente, os mais frágeis. Na Igreja não deve existir, direita, centro e esquerda. Há pessoas, particularmente, os pobres. Se a resposta está ao alcance de quem acolhe deve fazê-lo imediatamente sem olhar a quem.
A «política» (que internamente se chama de pastoral) da Igreja Católica radica precisamente aí. Por isso, com a maior liberdade, nunca deve a Igreja deixar de fazer as suas denúncias e alertas. O seu trabalho consiste em estar ao lado de movimentos sociais venham de onde vierem que tomem a sério a defesa dos sem lugar e sem vez na sociedade, os mais vulneráveis, que são os privilegiados no amor de Jesus e dos Apóstolos. Os líderes religiosos católicos não devem esquecer que seguimos alguém, Jesus de Nazaré, que foi preso, torturado e morto sobre uma cruz por causa da sua opção pelos últimos, que considerava serem os mais amados por Deus e para eles entendia serem os protagonistas do Reino de Deus.
2. O dia 1 de novembro na Liturgia Católica está reservado para a celebração de «Todos Santos». Este foi um dos feriados retirado pelo poupado governo em comunhão com a Conferência Episcopal Portuguesa. No entanto, o Pão por Deus e a celebração dos Santos são tradições ainda profundas no coração do nosso povo, por isso, a celebração dos Santos não foi retirada, mantem-se na Liturgia e continuam as tradições a eles associadas.
Foi pena ter sido retirado este feriado. Os apelos que ele significa de solidariedade e partilha, ao abrigo da expressão belíssima do «Pão por Deus», reveste-se de uma importância muito grande nos nossos dias, porque são cada vez mais urgentes as situações que se impõem à partilha e à solidariedade. Também oferece valor a significação de «Todos os Santos» perante outra face da moeda dos nossos tempos, onde sobressai o pecado pessoal e social do egoísmo, da ganância sob a ideologia do individualismo exacerbado que a organização social impõe como única forma de educação e crescimento. Há sinais que voltarão os feriados, ainda bem.
3. O Sínodo sobre a família terminou no dia 25 de outubro. Pouco ou nada trouxe de novo. Positivo: a doutrina foi reafirmada, o debate foi muito vivo e nalguns momentos aceso, as mulheres (poucas) puderam falar, os testemunhos sobre várias situações da vida e da família foram bastante abrangentes… Mas, na vertente pastoral pouco ou nada saiu de novo.
Mais uma vez tomamos conta de que o papa Francisco tenta mover uma enorme montanha, a Igreja Católica. As suas mãos estão totalmente disponíveis para que a montanha se mova, as outras mãos, aquelas que deveriam estar também disponíveis para colaborar nessa grande tarefa, empurram para trás.
Por isso, o Papa, melhor do que ninguém, sabe que não é fácil enfrentar uma instituição cimentada em alicerces seculares. Eles são uma plêiade de religiosos que vivem confortavelmente em comunidades ricas e luxuosas. Eles são o clero aburguesado que não estuda e que não sai da catequese mais corriqueira, devocionista e infantil. Eles são as mulheres poderem receber todos os Sacramentos, que são sete, menos o Sacramento da Ordem. Eles são o estigma contra os casais que falharam no casamento, as famílias monoparentais, que são cada vez mais e os recasados ou unidos de facto em segunda relação ou mais. Eles são os leigos que vivem num infantilismo confrangedor a sua fé e a base mais visível da pastoral está exclusivamente no devocionismo e na abundância de grupos ditos de carismáticos muito virados para o jogo emocional, onde entra uma linguagem esotérica e os milagres em série. Eles são preconceitos farisaicos graves contra a homossexualidade e a homofobia horrível, que exclui. Eles são também o facto de reinar uma insensibilidade perante aquilo que se designa hoje «os pecados sociais»: a injustiça, a corrupção, a desigualdade, a pobreza, a ecologia, as migrações (refugiados) e todas as situações/desafios deste nosso tempo que deviam ser a principal preocupação de toda a Igreja para que se fizesse jus à magnífica expressão do Concílio Vaticano II quando fala dos «Sinais dos Tempos».
Por conseguinte, devemos dizer honestamente que a continuarmos assim, vai continuar a aumentar em todo o mundo a ideia de que aquilo que Roma prega não é praticado pela maioria dos fiéis, como está bem claro no caso da doutrina sobre a sexualidade. Em todo o caso nada está perdido, se existir coragem e muitos seguirem os passos do Papa Francisco, que procura responder a todas as situações com a Palavra e jeito de Jesus.
José Luís Rodrigues