Nestas eleições tivemos mais uma vitória clara da abstenção. Mais uma vez a abstenção aumentou em relação às eleições passadas. Mais uma vez o problema persiste e mais uma vez nada foi feito para combater este problema. Se olharmos para as estatísticas, podemos verificar que se a abstenção fosse um partido tinha ganho estas eleições e seria governo. Seria preciso uma coligação à esquerda e à direita, todos juntos, para poder derrotar este fenómeno abstencionista. É preciso que a direita e a esquerda se juntem para combater este problema, para lutar pelo futuro da democracia em Portugal. Nestas eleições existiam dois modelos claros e distintos: um pela direita, que se apresentava unida, e outro pela esquerda, dividido pelos vários partidos. 38,5% dos portugueses votantes escolheram as políticas de direita, escolheram as políticas dos últimos 4 anos: escolheram o que provocou mais desemprego, mais emigração, mais impostos, mais cortes nos salários; escolheram menos investimento, menos escola pública, menos educação, menos saúde, menos segurança social; escolheram a continuação do que tínhamos. Esses 38% foram suficientes para ganhar estas eleições e governar Portugal. A direita ganhou, mas Portugal virou à esquerda: a esquerda que teve nestas eleições mais de 50% dos votos. A maioria dos portugueses escolheram política de esquerda: o PS, BE e CDU, todos partidos com políticas claras de esquerda, obtiveram a maioria dos votos dos portugueses. No entanto, mais uma vez, ficou demonstrado que enquanto a esquerda estiver dividida, será governada pela direita. E enquanto esta esquerda se degladiar uns contra os outros, será a direita a governar, e enquanto a esquerda e a direita não se juntam na luta contra a abstenção, será sempre a abstenção a ganhar e a democracia a perder. Num país com 10 milhões de habitantes, bastaram 2 milhões de votos para uma coligação com as suas políticas governar Portugal, mesmo sabendo que mais de 3 milhões votaram em partidos de esquerda, com politicas completamente diferentes; bastaram 2 milhões de portugueses para decidir o futuro dos restantes 8 milhões. A democracia está ferida. Enquanto não quisermos combater a abstenção, estaremos sempre a ferir a democracia ano após ano, levando esta democracia e o futuro de Portugal para abismos a que nunca pensámos um dia voltar. A luta contra a abstenção tem de ser clara e precisa e não retórica e bonita. O combate à abstenção tem de ser prioridade. Temos de perceber o problema da abstenção e arranjar a melhor solução. A abstenção nestas eleições legislativas ficou nos 43,07%, a taxa mais elevada desde a implementação da democracia em Portugal. Em 1975, a abstenção era apenas de 8,34%. Passados 40 anos, está nos 43,07%. Esta abstenção significa que 4,1 milhões de portugueses não foram votar. A pergunta que deixo é: o que acontecerá à democracia se a taxa de abstenção continuar a aumentar? Se não discutirmos esta questão, se nada for feito nas novas gerações, no que toca à cidadania e ao dever cívico de votar, se nada for implementado para mudar este problema, haverá democracia?

Olavo Câmara Presidente da JS Madeira