Miguel Alves Durante a noite e já de madrugada, enorme clarão
Pela janela m’entrava, e desde o tecto até ao chão Entre o dorme e o acorda, essa luz tudo invadia
Nessa minha confusão, entre o ser noite e o ser dia E lá por cima um ribombar, acho que até o céu tremeu Alguém o estava a arrumar, foi isso que me pareceu.
Entre o acordado e o sonhar, acabei despertando Depois das ideias clarear, vi que estava relampejando E no céu, ninguém a arrumar, estava apenas trovejando!
Que choradeira aquela, lá na rua a tilintar?
Levanto-me, vou à janela e, através dela, Vejo o meu beiral, a chorar!
Lá fora a ventania, tudo varria e tudo sujava Entre o chilrear dum canário, tombavam folhas amarelas Das árvores caídas, botadas ao abandono.
E perante estas sequelas, eu de algo me lembrava E vejo no meu calendário, a quantas andava Despedia-me do verão, porque o outono chegava E daí a razão, porque o meu beiral chorava.