Letícia tem nome de rainha mas não vive um conto de fadas. Letícia é uma criança madeirense que padece de paralisia cerebral. Vive com os pais numa das freguesias da Madeira, por entre vários poios, numa casa afastada da estrada.

Letícia está confinada a uma cadeira de rodas, o acesso à sua residência é muito difícil o que dificulta a sua integração no meio escolar e social.

A família, o pai e a mãe, são o suporte de Letícia. Todos os dias, faça chuva ou faça sol, Letícia desce e sobe 300 degraus para ir à escola, para ir ao médico ou para visitar familiares. Letícia é uma menina dócil que encanta à primeira vista. Tem apenas 7 anos de idade, mas na conversa sobre a sua vida não falta no diálogo que estabelece com os adultos. Os pais trabalham e por isso o Estado, abstracto e insensível, não concede qualquer apoio social a Letícia.

O maior desejo desta família é que se possa construir uma rampa que leve um carro até à porta de casa. Foi esse o sonho que me transmitiu Letícia um dia destes, numa das minhas deambulações pela ilha. Farei o que me for possível para cumprir esse sonho.

Lembrei-me de Letícia quando ouvi o Papa falar do valor da Família em Filadélfia. Francisco, no seu estilo tão peculiar e tão próximo, expressou as peripécias porque passam as famílias: “Nas famílias, por vezes, há pratos a voar, os filhos dão dores de cabeça e… não vos vou falar das sogras.” Mais a sério, Francisco disse o essencial: “Um povo que não sabe tratar das crianças e dos avós é um povo sem futuro, porque não tem a força nem a memória que o faça avançar.”

Como estas palavras se aplicam ao caso de Letícia a quem as ditas «entidades oficiais» escreveram que a construção de uma rampa para a sua casa não tem «enquadramento legal» nos regulamentos de apoios sociais.

Temos que superar esta indiferença e vencer as barreiras que travam a felicidade de Letícia. Ela merece.

José Manuel Rodrigues