V á votar. Hoje não promete. Não se pode falar do que não se pode falar, mas só faz sentido falar naquilo de que se não pode falar. Ou o texto segue tão interessante como censurável, ou tão secante quanto paternalista para o leitor.

Proibido de ir à substância, resta implicar com a forma. Seja.

A fotografia do boletim O surto começou no voto antecipado, e agrava-se hoje. Vem aí o boletim partilhado no Facebook, já com cruzinha. A brincadeira dá “likes” e notoriedade, e, por relatar um facto, não é bem campanha. Tecnicamente, a fotografia da cruzinha é uma renúncia ao segredo do sufrágio.

Por norma, magnífico. Renunciar a um direito é a forma mais intensa de o exercer.

Mas não estamos na norma. O voto universal, directo e secreto é precioso, recente no tempo e incomum no espaço. Ainda há pouco tempo, a adesão a símbolos, movimentos ou ideias era coisa clandestina, punida com ostracismo ou desgraça. É assim em boa parte do Mundo ainda hoje.

Partilhar o boletim de voto não é propriamente uma troça. Mas é pelo menos esquecimento – ou ignorância voluntária – dessa luta.

Sei que o sagrado passou de moda, e que o que os olhos não vêem o coração não sente. Mas não partilho o meu boletim pela mesma razão por que não corro em cemitérios – o solo custou e ainda custa a alguém.

No máximo, é uma falta de respeito. No mínimo, é uma piroseira escusada. E um like, o que é? Condescendência e companhia A 7 de Maio, Boris Johnson, Mayor de Londres, lançava o repto na sua página pessoal: “Bom dia, amigos. Eis o dia. Se não querem Mili[band] a tropeçar por Downing Street adentro nas próximas 24 horas, usem o vosso voto e #voteconservative”.

Era quinta-feira, dia de eleições. Os ingleses tiraram alguns minutos do trabalho e votaram num local próximo. Não se estima que o apelo do Sr. Johnson tenha arrecadado muitos votos. Não se esperava, de resto, que ele dissesse alguma coisa diferente nesse dia do que tinha dito nos cem anteriores.

Em Portugal, porém, o eleitor ainda é tratado como o idiota da freguesia. Estúpido e indeciso, deixa-se manietar por um par de linhas a caminho da urna.

Susceptível e desorganizado, só ao Domingo consegue orientar a sua soberania. Criatura de hábitos, só pode votar onde o Estado manda, ou num balcão guardado por um inferno burocrático. Depois de tudo, sobra lata para associar a abstenção ao tempo ou a hora e meia de bola ao final do dia É um insulto crónico e anunciado ao português médio. Venha mudança, que pachorra vai faltando.

Se julgam que me contradisse Sim, acho mal que se tirem selfies com o boletim e acho bem que, com juízo, se produza opinião em dia de eleições. Porque voto e opinião são coisas diferentes. O voto é meu, ninguém mo pode tirar, a opinião é pública e todos a podem contradizer ou desconsiderar. Além disso, o voto é um símbolo. A campanha na Internet É um lago de piratas com papagaios ao ombro grasnando. A rede já foi um espaço de expressão individual. Actualmente, os comentários dos jornais, páginas e painéis são uma arena de máquinas, avençados, convertidos e maníacos, disputando a percepção pública das notícias e dos casos.

A política não se faz numa bolha. Mas também não se faz neste turbilhão de ódio, infâmia, difamação e anonimato.

Perversamente, admiro mais hoje quem dá corpo e cara, quem não abdica, morde a bala da contradição e se expõe à trampa deste espaço público moderno.

Desdenho o cantinho “fixe” da soberba, da inconsequência e do cinismo, e prefiro quem arrisca a derrota de um projecto, de um grupo, e (no melhor dos casos) de uma convicção íntima e pessoal.

Sobretudo hoje, no dia em que isso conta – no dia em que “isso”, por uma vez, sou eu, e essa convicção vai talvez ténue, frágil, imprecisa, reservada, desvirtuada e mal interpretada mas vai, e vai minha. Eu vou.

Pedro Fontes