Ao chegar à cidade de Machico, observamos a sua ribeira, um dos postais mais visíveis e marcantes e que um dos nossos maiores poetas, de excecional talento, desta terra, Francisco Álvares de Nóbrega, assim descreveu “ (…) uma extensa ribeira preguiçosa/ ,porém, crespa na estação chuvosa/que aos íncoles infunde respeito e medos”(…)
Esta linha de água, considerada uma das maiores da Região que continua a marcar a face desta cidade, divide este maravilhoso vale. As suas águas deslizam dos Lamaceiros e Portela, até à baía de Machico.
Ao longo da sua História, este aqueduto natural, nas épocas de inverno, constituía uma enorme preocupação para os seus habitantes, quando as suas caudalosas correntes, saindo do seu leito, invadiam as margens e arrastavam violentamente grandes extensões de terrenos cultivados, casas de habitação, causando consideráveis prejuízos pessoais e materiais aos moradores das suas vizinhanças.
Foi o Rei Filipe II de Espanha que no séc. XVI a governar Portugal, perante os dramas que afligiam a população de Machico, sobretudo nas zonas de maior povoamento, o centro da vila e a Igreja Matriz, mandou construir as primeiras muralhas.
Ao longo de décadas a margem esquerda esteve parcialmente desprotegida. Só a partir da aluvião de 3 de novembro de 1956, por decisão da Junta Geral do Funchal, continuaram as obras de canalização até ao antigo engenho. Mais tarde, o Governo Regional com uma obra de requalificação notável e abertura de estradas ao longo da ribeira, completou, definitivamente, as muralhas até ao sítio do Moinho Serra.
A vida desta ribeira está associada não só a dramas e tristezas mas também a outros postais de vivências, espaços de trabalho e de lazer. Foram as lavadeiras, essas laboriosas mulheres, que em determinados locais de fácil acesso, ao longo do dia, ao sol, por vezes à chuva, ao frio lavavam a roupa de muitas famílias.
Dos areeiros que na época de verão, quando as águas corriam mais tranquilas, exploravam o leito e extraíam inertes que eram utilizados na construção civil. Eram os jovens que aproveitavam as suas águas e junto à foz, brincavam fazendo as suas aprendizagens na natação e na pesca.
Foram imagens que ficaram impressas na nossa memória, das nossas histórias, e dos numerosos turistas que retrataram essas mulheres com enorme curiosidade e interesse.
Mas os prováveis focos de poluição que desaguam na ribeira e que, todos os anos, afeta a qualidade da água do mar, na época de verão, provocando grandes impactos ambientais, económicos e sociais com certeza que têm merecido as preocupações das entidades responsáveis.
De enaltecer que os comportamentos, em relação ao meio ambiente, aumentaram em todos os estratos sociais e etários. Os novos equipamentos urbanos existentes para recolha e separação do lixo urbano, levou a promover uma mudança de atitudes e condutas individuais face à produção e eliminação de resíduos domésticos, afastando a ribeira de ser o depósito natural do lixo. O trabalho consistente e permanente da Escola, começou a dar os seus resultados. A ostentação de bandeiras verdes é um estimulante prémio, contribuindo assim para uma impressão positiva e saudável, um ambiente saudável e de qualidade.
A Festa do Senhor dos Milagres traz consigo, não só uma reflexão de fé, mas também de avivar a memória das populações de Machico para as forças das águas, sobretudo quando seus caminhos não são respeitados, tendo em conta o imperativo das suas margens e limpeza do seu leito.
A aluvião de 1803, traz-nos essa lição que a História dificilmente apagará. Por isso, Machico continuará a valorizar, a defender e a respeitar a Ribeira que Francisco Álvares de Nóbrega soube tão bem descrever.
Belarmino Rodrigues