José d’Olim O título desta carta vem a propósito do artigo do jornalista Ricardo Duarte Freitas, na edição deste matutino, de 11 de Outubro último, sobre o estado das ribeiras a montante da freguesia de Santo António. Uma reportagem que retrata o perigo explosivo escondido no leito das linhas de água mais significativas do concelho do Funchal. Mostrou a nu o que as webcams não revelam nem monitorizam como a deriva das centenas de troncos e arvores encavalitadas, derrubadas pela fúria das aguas do 20 de fevereiro e pelos incêndios florestais que mais tarde vieram a se suceder.
Tornou bem visível um carrocel de pedregulhos à solta e em iminente livre transito, com consequências imprevisíveis para a população ribeirinha dos principais cursos de água que desaguam na cidade da capital. Revelou a falta de exigência e de prontidão por parte das entidades responsáveis na Região pelas políticas do ambiente que, doravante não podem alegar desconhecimento nem continuar assobiar para o lado, sobretudo, quando está em causa a vida dos funchalenses e os nossos impostos, que nos são arrancados por uma dupla austeridade sem rosto humano. O DN fez o seu trabalho, alertando para estes nichos de perigosidade que atravessa a floresta da Barreira, o ribeiro do Pico do Prado, as linhas de água provenientes do Pico do Cedro e a parte a montante da ribeira do Vasco Gil comprometendo, seriamente, os esforços dos contribuintes da Região com os custos das obras de fortificação das margens de algumas ribeiras e na requalificação da frente mar da cidade.
Aliás, mal vai a nossa cultura de exigência se deixarmos que as pesarosas memórias do 20 de fevereiro nos passem ao lado e que nos deixemos corroborar com a passividade do governo sobre a segurança das nossas vidas ou mesmo em relação a outras problemáticas, transversais à maioria dos funchalenses em particular e aos madeirenses em geral. A reportagem tem por mérito desassossegar os funchalenses das suas responsabilidades, exigindo do governo regional medidas imediatas e eficazes que assegure a remoção destes escombros ao longo dos leitos destas ribeiras, não permitindo que o governo subestime a consciência reivindicativa dos funchalenses, ignorando que nada se passa e que a ignorância desta realidade é uma bênção profunda.
Agarrar-se nesta bênção e no trabalho de monitorização dos caudais pelas webcams, posicionadas nos açudes das ribeiras, não garante nem deve ser utilizadas para passar a mensagem que tudo está a ser controlado e registado pelo LREC. Todavia, a bênção divina, não alivia as responsabilidades de ninguém, nomeadamente de quem tem por missão o serviço público regional da gestão das questões do ambiente. Já agora, a título de lembrete aos nossos governantes: lá se vai o tempo, em que na Madeira, a ignorância era uma bênção profunda.