Hoje é dia de reflexão, essa criação original da política portuguesa que crê nessa necessidade, em nada baseada cientificamente (diz quem sabe !). Como se algum de nós, a este nível, reservasse o dia para analisar o que lhe propõem (ou não) uns e outros. Ou, talvez, o perfil e a personalidade dos candidatos, a partir do que disseram, proclamaram e fizeram (ou não) ao longo da campanha (ou noutros casos ao longo das suas vidas). E, com esses “dados na mão”, os integrássemos, todos, numa matriz de dupla entrada numa folha de Excel ou numa análise SWOT ...e, cientificamente, bem ponderados os resultados, decidíssemos, neste dia de reflexão, a “quem” iríamos entregar o nosso voto, em que “quadrado” iríamos fazer a “cruz”. Qual parêntesis, malfadada circunstância esta, pois, como diz um amigo meu, parece que estamos, qual simbólico, a colocá-la é sobre quem “escolhemos”, o que, à partida, nada augura de bom. Mas adiante. Como se não bastasse “o dia da reflexão”, criámos uma outra originalidade.
O de não puderem ser divulgadas sondagens a partir de determinada data, o que, das “duas uma”: ou o legislador acha que as sondagens influem no comportamento eleitoral do cidadão, o que, a ser verdade, implicaria a sua proibição em todos os anos eleitorais; ou o legislador acha que algumas sondagens, mau grado deverem ser depositadas junto de quem de direito para serem “validadas”, podem ser como que “adaptadas à medida do freguês”, pelo que a sua fiabilidade é de colocar em causa, o que significaria, então, que sondagens ....jamais, em tempo algum ! Mas as nossas “originalidades” neste campo não se esgotam por aqui. A 3ª delas, que complementa “o período para publicar sondagens” e “o dia de reflexão”, é a ideia (peregrina ?) de que algumas atividades não devem ocorrer no dia das eleições, pois o dia deve ser “estritamente” reservado ao ritual em causa, presume-se que por forma a que a reflexão do dia anterior não seja condicionada por amigos ou desconhecidos que se encontrem, vá-se lá saber onde ... e a dizerem-nos o quê. A polémica suscitada, este ano e nesta campanha, devido à realização de três jogos de futebol (matéria em que estou muito à vontade pois o tema passa-me completamente ao lado) no dia 4 de Outubro, é disso exemplo. O imbróglio foi, aliás, desta vez, ainda mais longe.
Pois não é que, à contrário do que alguns desejariam (que, após o ato eleitoral, todos se sentassem a ver e ouvir -- mais do que os resultados -- as interpretações sobre o que aconteceu e o que pode vir a ocorrer), há uns “malandros” que resolveram agendar um desses jogos para depois das 19h, assim induzindo a possibilidade de uns quantos não ouvirem os debates pós-eleitorais ? Sinceramente!... Deixem-se de falsas questões. Do que se necessita verdadeiramente é que se alterem as “regulamentações” referidas, eventualmente perceptíveis à luz da leitura que foi feita pelos deputados dos anos 70 após o que o país vivera durante 40 anos, mas que não se justificam mais numa sociedade que se pretende de informação, do conhecimento e da tecnologia. Antes pelo contrário. A este propósito, aliás, da tecnologia, permitam-me ainda que aduza a urgência é de se encontrar um caminho e uma solução para o voto electrónico, por forma a que não tenhamos a obrigatoriedade física de estar no nosso local de residência no “dia dos votos”, antes possamos cumprir com o nosso direito e com a nossa obrigação em qualquer local onde exista um computador com acesso à rede e um sítio a que cada eleitor, com nome ou número de usuário e uma palavra passe, possa dizer de sua justiça. E, hoje por hoje, como sempre, votemos. Todos. Em quem, cada um, em consciência, o entender, pois é de democracia que falamos.
Francisco Santos