Semanas de campanha eleitoral alertam-nos não só para as estratégias partidárias, como para o comportamento humano. Os candidatos transformam-se, adaptam-se, transfiguram-se. Após a abertura da caça ao voto, cada um utiliza o que tem, e o que não tem, para conquistar a possibilidade de pensar e conduzir o país enquanto governo ou oposição.

Independentemente da ideologia, ponto de vista ou personalidade, quem se dedica à política tem que ter a capacidade de ouvir. É interessante perceber que em período de campanha eleitoral a capacidade para ouvir ganha uma evidência incomparável com o tempo destinado à ação. Há assim como uma transfiguração do esquema comunicacional. Integrar a comunidade para somar votos é muito diferente de integrar a comunidade numa lógica de inclusão e participação. Em campanha eleitoral os políticos procuram a comunidade, integram-na, no ativo os políticos, essencialmente os que integram os governos, defendem-se, rejeitam-na.

Se muitos adultos se cansaram e desistiram de agir muitos jovens iniciam a sua vida adulta sem qualquer envolvimento no sistema político atual. Mais do que na política não acreditam nas pessoas.

A geração atual não foi educada para aceitar as coisas só porque lhe são impostas, a educação contemporânea investiu no potencial criativo, na responsabilização dos atos, na análise dos comportamentos, na autocrítica. Se a tudo isto chamamos maturidade onde encaixamos a atitude política no geral e concretamente em campanha eleitoral?

Não é necessário que os jovens pertençam a grupos político-partidários para serem ativos em democracia, o simples facto de se sentirem integrados numa democracia participativa deveria ser suficiente para se sentirem incluídos e motivados. Certo é que tal não acontece.

É também verdade que na educação atual existe um clima enevoado entre os valores que se assumem como essenciais e as práticas comuns. Uma das aquisições das últimas gerações foi a da aprendizagem da “mentira funcional”, aquela que por interesse se torna uma verdade.

Em campanha ninguém erra, tudo foi feito com a melhor das intenções, estão todos dispostos a colaborar, todos querem o melhor para o país e todos prometem mais e melhor. Apesar da realidade atual não permitir que a corda estique no máximo do seu potencial, há sempre um rasgo dissimulado de promessas descabidas. Em campanha, cada um tenta caçar o seu voto, vender o seu produto. É confuso aceitar que estes grupos fechados, virados para o seu umbigo, possam um dia em Assembleia pensar no país, no seu crescimento e desenvolvimento. São milhares os projetos inacabados, encostados às prateleiras ou mesmo transformados em cinzas, ou vítimas de delete, assim como as equipas que dançam a dança das cadeiras de quatro em quatro anos sob o tema da “confiança política” e depois transferem-se às pinguinhas para a comunicação social, na pele de comentadores políticos, aguardando que o encantador de serpentes lance a primeira melodia.

Apesar das imperfeições esta é a vida politica que até aqui permitimos que acontecesse, somos por isso responsáveis pelas nossas decisões. Não votar é permitir que outros decidam por nós.

Manuela Parente