I Enquanto, aqui e agora, música 1. Nada justifica colocar em relatividade o feito hediondo de Adolf Hitler. Fazê-lo é de si um ato nazista. Para além de lesa Humanidade. 2. Outra coisa deplorável tem sido a reedição da áurea estalinista. A absoluta barbárie comunista tem um saldo negativo que não fica a dever ao fascismo. 3. Aprende-se que o terror não é exclusivo da esquerda ou da direita, do religioso ou do secular, do Norte ou do Sul, do Leste ou do Oeste. Tem a ver com o processo histórico inquinado e capturado por atitudes e comportamentos de baixa estirpe humana. 4. Será que todo o sistema político gera sempre, por algum determinismo, a estabilidade e a governabilidade? Ou será tudo biodegradável e finito? Qual o ranço e o residual de risco nos aparatos desmontáveis e remontáveis? 5. Haverá uma hora - chamemo-la vigésima quinta -, tempestade anunciada e companhia desfeita, em que não se pode retocar a construção by the book. Em verdade, todos aguardam Godot. Uns na estação, outros nas encruzilhadas. A tal panaceia que não será para todos os males, nem algo que se pareça. II Canção para o Meu Pai 1. Falávamos sobre o ‘primeiro homem’ a pisar a lua. E que a música tocada no Apolo 11, logo alunado, fora “Georgia On My Mind”, na voz de Ray Charles. Nha Gina, que trabalhava connosco como doméstica, recusava, olhando para o luar, que os americanos haviam finalmente lá chegado. Era discussão pegada em casa da Dona Mindoca e eu, entre imaginativo e polémico, vaticinava que, se calhar para o Apolo 12, seria com a música “Song for My Father”, de Horace Silver. Hoje, muitas águas sob a ponte da minha vida, longe da infância e das caudalosas conversas com o meu pai, olho para a lua (e em banho de luar), canção e escanção que, existencialmente, me amanham. In the groove... 2. Não se poderá negar que uma criança morta, de borco, na areia da praia nos permita dormir o sono dos justos. Nem recusar que está tudo bem pelo Reino da Dinamarca se os fanáticos religiosos decapitam pessoas, os polícias racistas atiram pelas costas contra jovens negros nos guetos, as autoridades não escutam os apelos sobre os Direitos Humanos e os raids aéreos na Síria arrasam tudo o que mexe. Tão pouco pode-se ficar indiferente ao capitalismo de casino que, globalizando, deixa mais de metade do mundo na mais franciscana miséria. Que não normalizemos a sinecura e a barbárie. Haja esperança, venha o futuro. Inch Allah... III As metáforas 1. Revejo do Professor e Amigo Manuel Maria Carrilho os dois volumes do “Pensar o Mundo”, obra de referência sobre a mathesis, a nossa essência e existência. Em verdade, releio nas entrelinhas a coesão sequencial da filosofia contemporânea. 2. A princípio, pensei fosse notícia enganosa. Afinal, é o que mais há. Robert Mugabe, Presidente do Zimbabwe, acaba de ganhar o Prémio Confúcio, diz o texto, à espécie de bula de calmante, por ter injetado uma “energia renovada” na harmonia global. 3. Todavia, não falo dos térmitas e dos cupins que, no cogito do copo meio cheio ou meio vazio, coroem as liberdades e os Direitos Humanos. De repente, no telejornal, vejo um comentador monomaníaco e um apresentador neófito. Rio-me de quem sai e bate a porta, murmurando coisas estapafúrdias. Segundo Johann Goethe, “Todas as coisas são metáforas”...
Filinto Elísio