Ainda a propósito da polémica em redor do Estádio dos Barreiros, hoje Estádio do Marítimo, e da eventual ilegalidade no processo de doação do edifício denominado ‘Stadium dos Barreiros’ desde o seu primeiro registo predial, do governo regional ao C. S. Marítimo, o ilustre presidente do União SAD parece desconhecer, ou finge desconhecer, o que é uma decisão política. Parece desconhecer ou finge desconhecer que qualquer governo é eleito democraticamente para governar e tomar decisões. Muitas vezes essas decisões não agradam à maioria dos eleitores, que, depois, têm o voto como arma para julgar esses mesmos governos no momento certo.
E finge ainda que não pertenceu à família política que governou, e ainda governa, a Madeira desde que a democracia foi imposta em Portugal. E que fez os ‘actos tresloucados” de que fala. Apetece plagiar a figura de Batista Bastos na pessoa do impagável Herman José: onde estava no 25 de Abril?
Para mais, o presidente do União, ilustre causídico da nossa praça, tem assentado a sua tese num pressuposto que é uma mentira, quando fala da entrega “dos Barreiros a um privado”, quando sabe muito bem que o governo regional só poderia doar o Estádio dos Barreiros, como o fez, a uma colectividade de utilidade pública (C. S. Marítimo). E, tendo toda a legitimidade para discordar dessa decisão política, sabe, porque os dados são públicos, que não existe qualquer ilicitude no processo.
Mas afinal porque aqui chegamos? Foi o CS Marítimo que pediu os Barreiros ao governo, quando teve quatro projectos de construção para o seu estádio na Prebel, Fundoa, RG3 e Praia Formosa? Não, foi o governo regional quem tomou essa decisão depois de todos estes projectos não terem conhecido uma concretização por razões que a história vai contar?
Então recapitulemos a história de forma cronológica. O futebol profissional madeirense passara por momentos conturbados. O desejo de Alberto João Jardim constituir um clube único que disputasse o futebol profissional em Portugal fora chumbado de forma estrondosa pelos adeptos do Marítimo em Maio 1997. O Marítimo sobreviveu na I Divisão, mas Nacional e União estavam, desde 1995, nas divisões secundárias. Em 1999, Marítimo, Nacional e União chegam a acordo para a criação de uma sociedade que tinha por objectivo a promoção do desporto regional. Nasce assim a ‘Prodesmad’, sociedade que visava a exploração conjunta de áreas em que, previsivelmente, os três clubes teriam interesses comuns. A empresa, aprovada pelo Governo Regional e publicada no JORAM, estabelecia igualmente as percentagens de distribuição dos possíveis dividendos, ficando assegurada uma proporção que respeitava a dimensão do Marítimo (60% para o Marítimo, 20% para cada um dos outros sócios). Curiosamente, esta sociedade mantém-se constituída mas nunca chegou a desenvolver-se, devido às diferentes perspectivas com que União e Nacional encararam a contribuição para cada uma das instituições resultantes da nova sociedade. Nessa altura o União foi o primeiro a abandonar a sociedade, uma situação que se prende com o facto de ser então esta colectividade quem tinha a gestão da publicidade estática no Estádio dos Barreiros, o que não gerou consenso.
Ainda em 1999 o Marítimo apresenta um primeiro projecto para o Estádio dos Barreiros, muito parecido ao projecto que alicerçou a actual remodelação/construção do Estádio do Marítimo, mas destinado aos três clubes. Era a parte comercial da ideia que sustentava a ‘Prodesmad’, com as receitas a serem divididas na mesma proporção.
Nacional e CF União mostram-se em profundo desacordo com o projecto e tomam a decisão de abandonar os Barreiros. Nessa altura o CF União aposta na construção do seu complexo desportivo, no Vale Paraíso, que contemplava a construção do seu próprio estádio, enquanto o CD Nacional escolhe a Choupana para construir a sua cidade desportiva. E o (tal) governo regional ‘tresloucado’ suportou a ambição destas duas colectividades. Uma acabou o seu projecto, a outra não.
O Marítimo ficou só nos Barreiros, histórico, velho e caduco. O resto são detalhes!
Emanuel Rosa, Repórter