M. Conceicao V. F. Santos Penso que ninguém ficará insensível às colunas de refugiados, atravessando as verdes planícies europeias, em busca da paz e do pão que a guerra lhes roubou nos seus países de origem. Dói a alma, principalmente no que se refere às crianças! Faz- nos lembrar nos tempos bíblicos, os hebreus em busca da “ Terra Prometida “. Não serão na atualidade, as mesmas motivações e objetivos que levam milhares de seres humanos a deixarem o seu país, atravessarem desertos e cruzarem mares assassinos ? Onde estas Moisés que não abres caminho com a tua vara como fizeste no Mar Vermelho para passarem os hebreus? Por mais pensamentos xenófobos que possam surgir( e existem muitos! ) em relação a estas pessoas, uma forma eficaz de afugenta’- los, e’ pensar nas crianças que acompanham em grande número esses grupos de refugiados, muitas delas sozinhas, sem nenhum adulto responsável e portanto, alvos fáceis de toda a espécie de exploração. Vejam - nas caminhando ao sol e ao frio, encontrando barreiras que não compreendem. Mas ainda assim, conseguem sorrir e brincar, na sua inocência e verdade. É’ esse sorriso que não devemos deixar matar! E cabe a todos no seu país, mobilizar o mundo no sentido da sua proteção e das suas famílias. O poema “ Balada da neve” do nosso poeta Augusto Gil, no seu livro “Luar de janeiro “(1909) que muitos de nós, com mais de 50 anos, decorávamos na escola e declamávamos nas récitas das paróquias, pode ser um retrato fiel das crianças migrantes da atualidade. O poeta fala- nos de crianças que passam na rua, descalças, sobre a neve. Já faz frio na Europa. Pensemos nas inúmeras crianças que enfrentarão os rigores dum inverno inclemente, enquanto nós e os nossos filhos temos um lar para nos aconchegarmos... Transcrevo as duas últimas estrofes do poema na esperança que nos ajudem a ver este fenômeno dos refugiados sob a perspetiva duma infância ferida, sofrida, que compete a todos não tornar numa infância perdida. Para bem de toda a humanidade! Que quem já é pecador Sofra tormentos, enfim! Mas as crianças Senhor, Porque lhes da’s tanta dor?! Porque padecem assim?! E uma infinita tristeza Uma funda turbação Entra em mim, fica em mim presa Cai neve na natureza E cai no meu coração