
Em 1987, depois das disputadíssimas eleições entre Mário Soares e Freitas do Amaral que o fundador dos socialistas ganhou na segunda volta, uns meninos que ainda não tinham aprendido o que era democracia, apareceram com uns autocolantes a dizer ‘O meu presidente é o outro!’. Freitas do Amaral não merecia ser envolvido numa estupidez dessas, nem a democracia portuguesa precisava de criancices do género.
Passou, Soares foi presidente duas vezes, o PSD conseguiu duas maiorias absolutas, o PS mais uma, houve governos de minoria, mais presidentes e a democracia parecia ter crescido, atingido a idade adulta e da normal convivência entre partidos e ideias. Erro absoluto.
Na quinta-feira – como outros neste espaço já disseram -, Cavaco Silva decidiu contrariar o que a maturidade democrática exigia e provou que não é o presidente de todos os portugueses, como jurou ser. É o presidente da direita portuguesa e manifestou um ódio, visível e audível, aos eleitores que votaram nos partidos mais à esquerda. Cavaco Silva é o presidente do PPD/PSD e simpatizante do CDS. Mais nada. O resto, para ele, nem deveria existir.
A decisão que tomou, de indigitar Passos Coelho como primeiro-ministro, é a mais lógica, remetendo para a Assembleia da República a decisão sobre o destino desse governo. Mas teria, obrigatoriamente, de ficar por aí, recolher os papéis e voltar para o gabinete, deixando a democracia funcionar. O que veio junto, um discurso em que pretendeu dar um sermão ao país, dar ordens a um partido sobre o que deve fazer e praticamente garantir que, contrariando a Constituição que jurou defender, nunca dará posse a um governo com apoio do PCP e do Bloco, é inqualificável.
Consequência imediata desta intervenção disparatada é, certamente, a consolidação de um acordo que estava a ser difícil para António Costa conseguir ver assinado. Na noite de quinta-feira, o país político ficou definitivamente partido, sem hipótese de aproximações. E o responsável é quem deveria tudo fazer para o evitar.
Cavaco Silva deixou de ser o Presidente da República. Não pela decisão que tomou – praticamente a única possível – mas pela forma como a apresentou e a imagem que deixou aos portugueses.
‘O meu presidente não é este!’. Não é frase para um auto-colante, porque a democracia merece mais respeito, mas é o que vai na cabeça de muita gente. Mesmo muita, porque até quem votou na coligação e respeita a democracia se deve sentir ofendido.