Para quem prognosticava que chegaria o tempo dos tecnocratas, a atual turbulência nacional só sublinha que a política sempre esteve no centro da nossa democracia. E que ideologias contam para o desempenho da democracia que vivemos, sendo particularmente elucidativa a facilidade com a qual certos partidos colocam pilares dogmáticos de parte, inebriados pelo cheiro do poder. Esta semana assistimos a um dos melhores discursos - bem como a uma das decisões mais claras - do Presidente da República, ao indigitar Pedro Passos Coelho para formar governo. Para além de respeitar os resultados eleitorais, a praxis e a norma constitucional, Cavaco Silva teve a frontalidade de sublinhar que nunca um governo democrático português ficou refém de arranjos parlamentares com partidos antieuropeístas. E sublinhou aquilo que muitos suspeitavam: a esquerda não apresentou uma solução governativa consistente. A própria eleição de Ferro Rodrigues a Presidente da Assembleia da República foi um mau presságio do que se fabrica no horizonte político: um puro bloqueio político. Um impasse que contradiz aquilo que António Costa tinha prometido na noite eleitoral, nomeadamente que não iria agir por força de uma maioria negativa. Recentemente conseguimos sair da imposição de uma troika, que foi chamada por necessidade financeira. Hoje estamos perante a tentativa da formação de uma troika política, que não foi nem chamada nem claramente sufragada pelos eleitores portugueses. Bem pelo contrário: uma troika de esquerda, que se força politicamente, com pouco mais para oferecer que não seja uma mão cheia de vagas promessas “anti-austeridade”. António Costa arrisca-se a sacrificar a tradição democrática por uma mera nota de rodapé num livro de história. Ter e demonstrar sentido de Estado significa olhar para além das notas de rodapé, procurando o bem comum que se situa para além dos próprios interesses partidários.

Rubina Berardo Deputada do PSD na AR