Na hora em que escrevo, ouvidos que foram todos os partidos pelo PR, para breve estará, por certo, a indigitação de Passos Coelho para formar governo. Sem surpresa, consideradas a matriz ideológicas do PR e a tradição!? de ser indigitado o secretário-geral do partido mais votado. Esta prática é falaciosa porque considera erradamente que as eleições servem para a escolha do primeiro-ministro, quando na verdade o seu objetivo é escolher, para cada distrito, os deputados que têm por missão representar os seus eleitores. Dos deputados que constituem a AR, 60% foram eleitos nos vários partidos porque expressamente se assumiram contra o governo de Passos e Portas. Os 32% dos votos em Coelho e Porta são metade dos votos que são contra eles. Será que por serem votos de direita valem mais que os outros, ou que a tradição vale mais do que a vontade dos eleitores? Contra estes factos não há tradição que resista. Convém recordar que nesta legislatura se assistiu à rutura por Passos Coelho doutras tradições importantes e profundamente enraizadas na cultura parlamentar portuguesa, como nos casos do consenso entre PSD e PS em questões europeias e na eleição da Presidente da AR. Passos tinha a maioria e durante quatro anos arrogantemente não ouviu nada nem ninguém. O PS têm todo o direito de se associar, constituir e manter uma solução governativa sem que isso seja considerado como uma aberração ou como um crime de lesa-majestade. O facto de o PS ter todo o direito de formar governo, não significa, contudo, que o deva fazer no momento atual, entre outras, pelas seguintes razões: O PS português, à semelhança do Labour de Tony Blair e dos demais partidos socialistas europeus, desde os anos 70, foi progressiva e sistematicamente abrindo mão da sua matriz ideológica social-democrata a ponto de atualmente a diferença que existe entre esse socialismo anémico e bem comportado e o neoliberalismo é mais de forma do que de substância, não sendo hoje uma alternativa credível para os que defendem o estado social. Ao longo do tempo os partidos socialistas, sociais-democratas e trabalhistas, foram “vendendo a alma ao diabo”, e perderam desse modo alguma superioridade moral granjeada ao longo de décadas de lutas, assumindo os mesmos comportamentos, dando cobertura e envolvendo-se de igual forma que a direita trapaceira em todo tipo de trapalhadas e esquemas ilegais ou de legalidade duvidosa. Junto com a “perda das bandeiras ”, foi-se também o eleitorado. O PSOE espanhol e o PASOK grego são disso bons exemplos e o PS corre o mesmo risco. As pessoas desesperadas com as consequências da governação de Passos Coelho, não reconheceram ao PS a consistência necessária à implementação de políticas contrárias à austeridade e tiveram de procurar mais à esquerda, beneficiando o PCP e o BE. Para formar governo o PS estabelece acordos (que não são de legislatura) branqueando o facto de que estes partidos nunca exorcizaram as suas matrizes ideológicas fundadoras, estalinista e maoista respetivamente. Há poucos dias o PC considerava a saída do Euro e o BE, por mais “clean” e doce que seja Catarina Martins com a sua patine cordata e moderada, terá por certo uma mão de ferro por baixo da luva branca. O PS, ao formar governo suportado por estes dois partidos, correrá o risco de os ver “roer a corda” se lhes aprouver, ficando refém, ou mesmo de, no limite, ser devorado. Esta solução teria contudo a vantagem de forçar uma necessária e urgente bipolarização direita-esquerda em vez do atual cinzentismo onde nada tem os contornos nítidos e em que é “tudo é centro”. Por outro lado, para além da generalidade dos números do país estar pior do que estavam antes desta legislatura, tenho a firme convicção de que o governo PSD-PP, não nos contou a história toda e que brevemente teremos péssimas notícias especialmente das provenientes da banca, que “rebentarão” nas mãos do PS se este for governo. Se o PS for de imediato governo e pretender implementar as medidas com que se comprometeu, terá a oposição frontal do dictat neoliberal europeu, tal como aconteceu com o Syriza. Mais avisado será esperar pelas eleições espanholas com a expectável vitória do povo de esquerda (acabou de acontecer no Canadá) e então avançar com uma série de iniciativas que, a serem tomadas agora, seriam trucidadas. Ao contrário de Portugal, na Europa a Espanha faz diferença. Se o PS formar governo, o PSD e o CDS não perderão a mínima oportunidade para se vitimizar e com a desfaçatez e semvergonhice a que nos habituaram, com a cumplicidade dos seus amigos na Europa, derrubarão o governo que entretanto se terá desgastado, para, a médio prazo, aparecerem como “salvadores da pátria”, instalando-se durante um período de duração imprevisível. Poderá o PS deixar Passos Coelho formar governo, viabilizando os governo através da abstenção, cerceando-lhe os “arroubos de malvadez” dando tempo ao tempo de modo a rebentarem todas as broncas e armadilhas de Passos e Portas, cozinhando-os a termo certo em lume brando (como disse AJJ) E SÓ ENTÃO surgirem os socialistas como alternativa negociando pontualmente à esquerda e à direita de forma a poder implementar as políticas com que se comprometeram. Por várias vezes, em Portugal houve governos minoritários que governaram com sucesso. Boa parte de nós está farta e saturada do governo de Passos e Portas e deseja avidamente novas políticas mas julgo que de momento há que ter a coragem de dar tempo-ao-tempo e deixá-los “caírem de maduros”. Parece-me estar o PS numa “camisa de 11 varas”. Por um lado se for com “muita sede ao pote” e quiser de imediato formar governo, pelas razões referidas arrisca-se a “desaparecer” como aconteceu ao Pasok. Por outro lado como poderá, depois de todas as diligências que empreendeu à esquerda, viabilizar um governo de Passos Coelho? Ocorre-me o pensamento ocioso de que se PSD e CDS juntos valem 36% separados e atribuindo 8% ao CDS, ficariam 28%, para o PSD, uma insofismável vitória!

Helder Melim