Desde muito novo o desporto sempre me fascinou, tanto a sua prática como todas as notícias a ele inerentes. Como praticante federado joguei andebol, primeiro, futebol e depois parei na minha paixão, o atletismo. Conheci há mais de 40 anos o João Baptista. Nessa altura e durante muitos anos aqui na nossa Região ele era o único que víamos a treinar grandes distâncias em estrada, talvez por isso e porque não havia entre a população hábitos de corrida, o João era apelidado de “louco”. Também, e verdade seja dita, o João muito treinava mas quando aparecia nas poucas competições que havia na altura, competia à maneira dele, partia muito antes e não cumpria regras. No final das provas, fosse da organização ou dele próprio, tinha de ter um troféu, tinha que ir ao pódio. Com a formação da Associação de Atletismo há 18 anos, entidade a que estou ligado desde a primeira hora, dá-se um grande incremento na modalidade, passando a haver muito mais atletas e provas de estrada. Com alguma paciência e pedagogia pelo meio disciplinou-se o João e foi passar a vê-lo a partir junto com todos, cumprindo as regras e periodicamente a ir ao pódio com mérito, pois vencia ou classificava-se bem no seu escalão. Passados alguns anos o Baptista vai viver para Lisboa, para a zona do Jamor onde a sua presença, animada, brincalhona, às vezes um pouco “melguinha” era bastante notada pelos muitos atletas e curiosos que ali passavam diariamente. Ficou célebre há uns tempos numa entrevista dele ao canal público de televisão quando a dado passo diz “que até os coelhos da mata do Jamor param para dar palmas quando ele está a treinar”. De regresso à sua terra e com os anos a pesar (fará 78 no dia de São João, como ele próprio faz questão de frisar) é vê-lo todos os dias no Parque Desportivo de Água de Pena a treinar e convivendo com quem por lá passa. Os últimos tempos não têm sido fáceis, o João padece de mazelas graves nos pés, embora isso não consiga demovê-lo e de procurar ajuda médica. Entre dois amigos, ilustres conterrâneos como ele de Machico, já ouvi de um “que o Baptista não tem dinheiro para mandar cantar um cego” ripostando o outro “ele tem dinheiro para mandar tocar os Pink Floyd”. Já em Março deste ano o João entrou na Maratona do Funchal e pela primeira vez assistimos a uma sua desistência, pudera o estado dos seus pés não o deixou correr. Mais recentemente organizámos o “Madeira Uphhil 2000” com partida no cais da cidade e meta no Pico do Arieiro, 21 kms depois e a 1.818 metros de altitude, foi sempre a subir. Entre os 153 atletas à partida lá estava o João Baptista. Sabendo do seu estado de saúde, do seu sofrimento eu e todos os presentes pensávamos que o João não chegava nem ao Monte. Com o decorrer da prova e em contacto com as várias zonas de abastecimento e com as ambulâncias lá íamos sabendo que o João ainda continuava. Com o staff organizativo, desde médico, fisioterapeuta, bombeiros, juízes, pessoal do catering e nós, os dirigentes, e já com algum nevoeiro, 4 horas, 40 minutos e 21 segundos depois da partida no Cais lá estava, qual D. Sebastião!, o decano dos atletas madeirenses, João Baptista de seu nome a cortar a meta. E nós, entre uns arrepios na pele, por instinto formámos 2 cordões para o João passar a meio e presenteá-lo com uma ovação mais que merecida. No pódio e com um grande troféu, esquecendo dores, qual masoquista, era ver a felicidade do João, e eu sabendo os milhares de pessoas que diariamente correm, interrogava-me quem é que é louco? Perdoa-nos João, mas trata os teus pézinhos, porque tens muitas corridas ainda para fazer.
Egídio Olim Dirigente desportivo