Se isto fosse um guião para um filme de terror, seria notável. Mas não é. Isto, é a vida colectiva de um país que durante 4 anos sob a batuta de Passos, Portas e Cavaco foi ‘o exemplar bom aluno’ da Europa – e que está num estado miserável. Entre 2011 e 2014, o índice de privação material severa (em palavras simples, a pobreza a sério) aumentou de 8.3 para 10.6 e os pobres estão mais pobres – a taxa de intensidade da pobreza passou de 24.1 para 30.3; estamos perto dos 2 000 000 de pobres – quase 20% da população vive com menos de 5000€/ano; o rendimento médio caiu cerca de 8.5%; no âmbito da OCDE, Portugal é dos piores no apoio a crianças e idosos. Indicadores, entre tantos outros, a exigir novas soluções. Mas a grande ‘novidade’ é que continua a não haver alternativa! A aparente inércia de Passos e Portas depois das eleições só comprova uma única ambição: conservar o poder para continuar a aplicar a mesmíssima política. Com, evidentemente, piores resultados tanto mais que se começam a destapar, bem ao de leve, algumas situações cujas consequências ainda havemos de conhecer. E esta gente conta com apoios. Por isso mesmo não me admiraria nada, até pelo que se tem vindo a passar no PS, que um grupo de deputados deste partido ‘no superior interesse nacional’ faça o ‘sacrifício’ de viabilizar o governo que Passos apresentará. A minha única dúvida, se é que se pode chamar dúvida, é porque é que esta gente não muda de partido. A menos que seja de propósito… E há Cavaco, com tudo o que representa ideologicamente mais o que aprendeu nos cerca de 25 anos que leva nos patamares da política – entre ministro das Finanças, presidente do Conselho Nacional do Plano a dar parecer sobre as Grandes Opções do Plano, primeiro-ministro e presidente da República. Nos 41 anos desde 1974, 25 têm de uma forma ou de outra a mão de Cavaco! Já não governa mas continua a interferir na governação – como se vê pela gestão que tem feito neste período, levando para vésperas da época natalícia as grandes decisões da formação do governo. Além de ter articulado a marcação de eleições de tal forma que a campanha para as presidenciais cai justamente em cima do Natal e Ano Novo – como se sabe uma altura em que o país inteiro está concentrado na discussão política… Cavaco está de saída e o que a direita mais retrógrada e subserviente aos grandes interesses financeiros quer assegurar é que em Belém fica alguém que lhe continue a garantir ‘estabilidade’, ‘atenção aos mercados, ‘respeito por Bruxelas e pelos mecanismos do euro’, etc., etc., etc. Se não, o que explica que ainda na noite das eleições legislativas, uma ‘sondagem’ ‘revelasse’ Marcelo com uma maioria esmagadora? Mas este assunto fica para outro dia. Que essa direita não perdeu tempo percebe-se, organizada, e muito bem organizada, que está nos media. Desde há muito que a toda comunicação social está enxameada de ‘comentadores’, verdadeiros agentes de propaganda que, bem remunerados, pressionam, mentem, criam opinião, insultam até – quanto receberá, por exemplo, César das Neves para dizer que a maior parte dos pensionistas não são pobres, fingem? Ou aqueles para quem qualquer governo que não o de direita é ‘um golpe de Estado’ e que engendram apreciações sobre soluções legais e constitucionais… mas não éticas! Mas nenhum se pronunciou sobre a inadmissível e anticonstitucional ingerência de Cavaco, quando objectivamente excluiu o Bloco e o PCP de negociações para a formação de governo. É inocente que, neste período único da vida política nacional apareçam novas ‘sondagens a revelar’ que os portugueses já se arrependeram de não ter dado maioria absoluta à coligação, mas que se as eleições fossem hoje, dá-la-iam? Se isto não é manipulação… Paquete de Oliveira, provedor dos leitores do ‘Público’, escreveu no domingo um artigo muito lúcido e crítico do papel desta comunicação social: “Os meios de comunicação que dizem estar ao serviço dos valores da democracia não se podem abster de gerir, com equilíbrio, o pluralismo democrático na constituição dos painéis de comentadores convidados ou encartados ou contratados (…) Em relação aos comentadores estão em falta muitas declarações de interesses. Para que o grande público perceba de onde procedem e ao que vêm. A bem de uma ecologia intelectual mais pura na arena da liberdade de opinião e expressão”. Que isto nos possa ajudar a perceber o pé em que estamos.
Violante Saramago Matos