Um dos melhores filmes que vi este ano foi o “divertida-mente” da Pixar (sim, o filme de desenhos animados) que mesmo por estar recomendado a maiores de 6 anos aconselho que todos o vejam e reflitam.
O filme fez-me pensar na dificuldade que os adultos têm em ver uma criança triste. Na nossa ideia, a infância é como uma fotografia dos catálogos infantis, em que só há espaço para a felicidade, brincadeiras e sorrisos. Dizemos frases como “as crianças não têm problemas” ou “na infância é tudo só brincadeira”. Quando vemos uma criança triste ficamos assustados, achamos que é anti-natura, que falhámos na nossa função de criar crianças felizes, mas se pensarmos bem, as nossas emoções são como um arco-íris que vive dentro de nós: todas têm o seu espaço e todas juntas dão colorido à vida. Muitas vezes recebo adultos assustados a pedir consultas urgentes para crianças que logo após tragédias como a morte de um familiar, uma separação, estão tristes. Soam as sirenes e temos de fazer algo rápido para que a tristeza desapareça. Porquê? Anormal era se perante uma dessas situações alguém não estivesse triste.
No filme, a alegria tenta a todo o custo afastar a tristeza da mente da personagem principal, para no fim concluir que a tristeza também tem o seu papel e é necessária para ajudar a criança a lidar com a situação. A tristeza é essencial para crescermos, para reflectirmos, para nos conhecermos. Quem fala da tristeza fala também de emoções como o medo, a raiva, a frustração. Queremos a todo o custo proteger as nossas crianças desses sentimentos, mas, paradoxalmente, nunca se receitaram tantos antidepressivos e ansiolíticos como hoje em dia. Estaremos a criar pessoas emocionalmente imaturas, incapazes de lidar com emoções negativas? Estaremos a proteger tanto as crianças que quando estas se deparam com o mundo real, que tem injustiças, fracassos, perdas, dor, não sabem o que fazer? Pessoas que não aprenderam a pensar e a sentir, por isso limitam-se a agir? O acto substitui o pensamento e corremos freneticamente para fugir da tristeza, para preencher o vazio.
Não protegemos uma criança do sofrimento evitando que esta o encontre. Cabe-nos a nós, enquanto adultos, estar lá para dar a mão perante os obstáculos, ajudar a levantar quando caírem, abraçar quando for necessário, ajudar a encontrar recursos, pois, tal como acontece com as vacinas, expor-nos um pouco à tristeza torna-nos mais resistentes a doenças mais graves.
Catarina Homem da Costa