Eduardo Simões Com o devido respeito por todos os comentadores que até ao momento se prenunciaram sobre o impasse decorrente do último acto eleitoral, importa que se tenha em atenção os seguintes pontos:

1º Quando diáriamente fomos confrontados com as sondagens da RTP e TVI, desde logo, tornou-se claro que não era expectável uma maioria partidária, quer da parte da coligação quer do PS; 2º Posto isto, Cavaco Silva apressou-se a afirmar que não viabilizaria nenhum Governo minoritário, porque não daria garantias de estabilidade. É aqui que reside o seu maior erro em termos de atuação. Mais uma vez, demonstrou que foi mal aconselhado, como em tantas outras questões no passado, como foi por exemplo o caso BES; 3º A intenção pré anunciada de não viabilizar um Governo minoritário em plena campanha eleitoral, acabou por condicionar a escolha dos eleitores, bem como a própria estratégia dos partidos na condução das suas campanhas.

Assim, desde logo, o PS, antes mesmo do acto eleitoral, tornou-se a “chave da solução” governativa (ou venceria com maioria, o que era inverosímel, ou viabilizaria um Governo de direita). Ao que parece, tanto o BE como o PCP, compreenderam desde logo essa mesma inevitabilidade, conduzindo as suas campanhas contra a coligação e sobretudo contra o PS, como se tratasse de “farinha do mesmo saco”. Desta forma, procuraram inviabilizar qualquer tipo de entendimento futuro à direita; 4º Agora Cavaco Silva, vem afirmar que estudou, como seria natural, todos os cenários possíveis pós eleitorais. Contudo, parece-nos que em momento algum, colocou a hipótese de um cenário em que houvesse um crecimento extonteante do BE, e a possibilidade de uma plataforma de entendimento à esquerda. É aqui precisamente, a meu ver, que resulta a génese deste impasse político; 4º Os eleitores por seu lado, conhecendo as intenções de Cavaco, e receando que o PS viabilizasse um governo de direita, direcionaram o seu voto mais à esquerda, permitindo que o BE tivesse uma palavra a dizer numa futura solução governativa; 5º Por seu lado, o próprio BE finalmente demonstra ter aprendido com os erros do passado, respondendo às expectativas daqueles que ambicionam que o BE se torne um partido de poder ou que se torne um jogador prepoderante e ativo no tabuleiro do jogo político. Sintomático disso mesmo, é entender que o resultado eleitoral obtido foi provavelmente circunstancial, o qual deverá ser encardo como uma oportunidade única a não ser desperdiçada; 6º Por seu turno, o PCP pretende não ficar fora do “festim” que se avizinha, procurando arredar-se da subalternização no expetro político que se tem vindo a acentuar, sob pena de colocar em perigo a sua própria sobrevivência política;

Assim sendo, e tendo em conta todas estas circunstâncias que não foram previstas, faz com que Cavaco Silva tenha sido ultrapassado pelos acontecimentos, como tem sido seu apanágio. Certamente, já se terá arrependido de não ter ficado calado antes do acto eleitoral e não ter convidado a coligação PSD/CDS a formar Governo, após legitimamente ter ganho as eleições.