
Cavaco Silva encomenda um governo a Passos Coelho que não passa no parlamento e, depois, aceita um governo de António Costa, em coligação com o PCP e o Bloco que durará enquanto não se entrar nas questões fracturantes. Deve ser esta a sequência de decisões do Presidente da República nas próximas semanas. Previsível, como foi o resultado das últimas eleições que só surpreenderam quem se fez de surpreendido.
Dias antes da ida às urnas, a probabilidade de uma vitória da coligação, sem maioria absoluta, era enorme. No dia 4 confirmou-se e, no dia seguinte, como se já tivessem maioria absoluta, PSD e CDS assinaram um acordo de governo.
Dois dias depois das eleições, os portugueses foram surpreendidos com a surpresa da coligação com o que já todos esperavam: o PS não viabilizava o governo e PCP e BE, pela primeira vez, aceitavam entrar num acordo de poder. Pelo meio, o presidente da República comete a imprudência de não cumprir a tradição política portuguesa e pede a Passos Coelho para preparar uma equipa de ministros, sem ouvir mais ninguém. Pior, define os contornos do que pretende e exclui, de uma forma inqualificável, 20% dos eleitores portugueses que optaram por dois partidos que, em conjunto, têm 36 deputados. Partidos iguais aos outros.
Contra factos não há argumentos, dizem, mas neste caso até há. É um facto que a coligação ganhou, também é um facto que à sua esquerda há uma maioria dispersa de mais de 60%, é outro facto que o programa do PS é muito mais próximo do da PàF. Mas há mais.
Também é um facto que quem estava a ser avaliado era o actual governo e que o resultado foi a rejeição por mais de 60%. Outro facto é que nada pode obrigar António Costa a viabilizar seja o quem for.
Factos que chocam uns com os outros e que fazem disparar os argumentos. Dos mais lógicos aos mais estapafúrdios.
Agora, duas semanas depois das eleições, entra a questão de que todos falam mas sem explicar: encontrar a estabilidade governativa. O tal governo para quatro anos. O próprio Marcelo, já a falar como futuro presidente mesmo antes de ir às urnas, quer um executivo para uma legislatura e não para oito meses ou um ano. Há quem queira o euromilhões, mas só sai a alguns.
E se é de estabilidade que se trata e for esse o critério de Cavaco Silva, Passos e Portas já perderam. Um governo da PàF durará apenas o tempo que o PS entender. Podem ser dois anos ou apenas oito meses. Até ao fim da legislatura é que não chega, como aconteceu a José Sócrates. É claramente a solução menos estável.
O outro, o governo da esquerda, da 'europeia' à 'clássica', só terá futuro se não se basear em acordos parlamentares mas numa coligação com os três partidos no governo. E com 'moratórias' sobre as posições mais radicais do BE e do PCP. Mas também é difícil acreditar que funcione muito tempo.