Miguel Alves Por volta das dez e meia Chegava aquele horário Lá à minha aldeia Trazendo o diário Que vinha da cidade Na minha tenra idade Entregava-o o bilheteiro, De mão, a mão Lá ao vendeiro Na venda, do João Num certo dia Nas compras de minha mãe Eu vi que lá havia Um diário, também Cuja serventia Era embrulhar o sabão Sem perguntar se podia Deite-lhe logo a mão Para lê-lo, num instante E depois de já o ter lido Duma tira fiz um anel E para nada ser perdido Aproveitando o restante Fiz um barco de papel Não sei, o dia nem a hora Sem relógio nem calendário Devido à minha pequenez Mas digo-vos aqui e agora Que foi esta a primeira vez Em que li, o meu o diário A partir d’então Eu ia lê-lo muitas vezes A essa venda do João Que o emprestava aos fregueses Para o lerem ao balcão. Depois de toda a gente o ler Ele, embrulhava o sabão. Mais tarde fiz-me assinante E sem perder o tino Cinquenta anos, já lá vão Admirando este matutino Meu companheiro da manhã E digo-o sem qualquer fantasia que na minha casa… Só com o diário se faz dia