Gil Canha O corte “a talho de foice” das palmeiras da marginal da Calheta fez-me lembrar um episódio rocambolesco, contado num livro de Luís Sepúlveda, “O Velho que Lia Romances de Amor”, em que um dentista do alto Amazonas foi confrontado por estranho pedido de um paciente, que lhe exigiu, sob ameaça de morte, que lhe arrancasse todos os dentes, bons e maus, pois fizera uma aposta com os companheiros para provar que era muito corajoso e determinado. E conta Sepúlveda: “No final da carnificina, desdentado e de cara inchada até às orelhas, o matarruano mostrou uma expressão de triunfo horripilante”. Ora esta história descreve de certa maneira aquilo que aconteceu na Calheta. A autarquia, sem ouvir a opinião dos entendidos nem da Direção Regional das Florestas e sob o pretexto estapafúrdio que as palmeiras ameaçavam a segurança das pessoas, desatou a cortar tudo a eito, quando era tão fácil identificar as palmeiras que estavam infectadas. E então, no lugar daquelas que estavam doentes, recomeçava a plantar espécies arbóreas da região. Aliás, a grande maioria delas era tamareiras, plantas caríssimas, que “por enquanto” não estão a ser atacadas pelo escaravelho. Mas, mesmo não sendo plantas endémicas da Madeira, as palmeiras davam um toque “tropical” à marginal e contribuíam para o enriquecimento paisagístico da frente-mar da Calheta. A autarquia não fez caso disso, e copiando o matarruano apatetado do alto Amazonas, optou orgulhosamente pelo corte total.