Aqui pelo norte, o primeiro domingo de Outubro foi algo atípico. Não tanto por ser dia de eleições nacionais, mas porque esse facto obrigou ao adiamento da festa em honra de Nossa Senhora do Rosário, que habitualmente se realiza sempre nesse dia. Além disso, o S. Pedro abriu as torneiras e abanou os lençóis, não deu para fazer muita coisa, nem andar na rua. Esteve mesmo bom para, depois da missa, ficar mais algum tempo no café na conversa, ou melhor, na bilhardice. Claro que uma boa bilhardice nunca é sobre um único assunto e ainda por cima em dia de eleições, foi lavar até dizer chega. Houve até quem comparasse a grande quantidade de partidos com a fartura de uvas que houve este ano. “É tudo em grande”; diz o Manuel. Foi aí que o “Caladinho” decidiu falar e chamar atenção para o ditado popular: - Olhem que dia de fartura é véspera de miséria! - Então queres dizer que vamos voltar ao tempo do Salazar ou que para o ano não vai haver vinho? - perguntou preocupada a Maria. - Não - respondeu o José no lugar dele. - Vão acabar é com os partidos, é sempre o mesmo a ganhar. E alguém remata: - Isso não pode ser! É como na bola, é o Porto que ganha, mas tem de ter os outros para haver jogo. Gargalhada geral. Nova intervenção do Caladinho, que volta a falar no assunto do momento, as vindimas que, infelizmente para os agricultores, este ano não correram nada bem. “Estão todos aflitos com tantas uvas ainda por apanhar… Mas não há problema, o governo vai comprar tudo, e ao mesmo preço!” Quem não esteve de acordo com isto foi o Manuel das Costas de Baixo, que, meio irritado, pergunta: “E quando eu tiver banana e semilhas e ninguém quiser comprar, o governo também vai ficar e pagar o justo valor?” Ao que responde o José, para rematar: “Já bebi mais com menos conversa! Vamos mas é tomar um aperitivo para ir ao almoço que já tenho uma laricazinha. Para mim pode ser um vinho madeira fresquinho…..ah, no copo do Sr. Padre”.
Joel Freitas Empresário