A autoria desta frase é do Rigo, reputado artista madeirense radicado há muito nos EUA. Conheci o Rigo quando estávamos a tentar atrair para a Madeira o Chris Csikszentmihályi, professor que ocupa a cátedra europeia do M-ITI que apresentamos a semana passada. O Chris estava na expectativa de uma mudança radical de Los Angeles para a Madeira. Como é jovem e vinha com e uma filha pequena de dois anos perguntou ao Rigo como era nascer e crescer numa ilha como a Madeira. Reza a história que o testemunho por email do Rigo foi determinante para que este Professor, que liderou durante dez anos um laboratório no MIT Media Lab, acabasse por aceitar o convite para vir para a Madeira liderar uma das primeiras cátedras europeias do Horizonte 2020. Espero que o Rigo e o Chris me perdoem esta inconfidência, mas é uma história que me parece ser paradigmática dos tempos que vivemos. Primeiro é uma história que demonstra que a Madeira pode ser atrativa para talento ao mais alto nível internacional. Para isso é necessário projeto, massa crítica e presença em redes internacionais. Ninguém vem para a Madeira pelo bom tempo a não ser para se reformar ou como turista. A cátedra europeia só foi possível porque existia um projeto, uma ligação à Carnegie Mellon, um corpo docente altamente internacionalizado com redes e contactos nos melhores centros mundiais de investigação. Tudo isto trás credibilidade, mostra tolerância e abertura, inspira confiança. Segundo porque demonstra a importância das redes informais de talento que coexistem nas intersecções entre as artes, as humanidades e as ciências e engenharias. O Rigo artista em San Francisco foi um embaixador para trazer um tecnólogo que esteve na origem do Twitter e do Wikileaks para a Madeira. Cultura é isto, a manifestação intelectual coletiva que Rigo tão bem representa ao levar a sua sensibilidade de ilhéu aos grandes centros mundiais na fronteira das tecnologias. Os murais do Rigo valem muito mais do que qualquer missão empresarial. A cultura e a história são um dos nossos maiores patrimónios. Terceiro porque demonstra que as ideias fora da caixa e ambiciosas podem e devem ser plataformas para juntar os agentes regionais em torno de uma visão de excelência que nos pode projetar para o futuro. Temos que saber trazer à superfície a nossa tradição cosmopolita. A Madeira, o Funchal podem ser a esquina do Mundo a que se referia Ferreira de Castro: “Aquele ângulo do Funchal era entre as esquinas do Mundo, um dos mais dobrados pelo espírito cosmopolita do século”. Estas três questões são fundamentais para uma visão de futuro da Madeira para a qual o M-ITI procura contribuir atraindo cada vez mais pessoas de qualidade. Pessoas que não sendo ilhéus nem portugueses são capazes de interpretar a traduzir esta nossa necessidade cosmopolita de nos abrirmos ao exterior e de transcendermos o território. A metáfora das flores delicadas do Rigo quando se referia à sensibilidade muito madeirense que nos leva a zangas que duram muitas vezes anos. Como se essas zangas fossem necessárias para aumentar o território e criar o espaço necessário à nossa existência na ilha. Estamos a sair da mais grave crise da nossa história recente. Precisamos de projetos ambiciosos, capazes de inverter o deficit de talento e mobilizar os agentes regionais em torno de uma visão de futuro baseada na excelência. Muitos dizem que estão fartos do discurso da excelência. Mas eu confesso que estou farto é do discurso da mediocridade que só serve para justificar as capelinhas e os interesses mesquinhos. O discurso que se alimenta do medo e nos suga o entusiasmo. A Madeira foi o primeiro sítio onde se fez a Europa fora do seu espaço geográfico original. São quase seiscentos anos de história na esquina do Mundo. Esta esquina do mundo não pode nem deve ceder aos interesses provincianos porque nós precisamos de ser cosmopolitas. Precisamente porque somos ilhéus.

Nuno Nunes Professor Universitário e Presidente do Madeira-ITI