Desde muito pequeno que me habituei a ouvir da boca do meu avô materno este ditado que cada dia considero estar mais actual.
Os programas da manhã dos diferentes canais de televisão, para além de se dedicarem às bilhardices do mundo cor-de-rosa reservam, diariamente e à hora de almoço, um espaço dedicado à criminalidade, comentado por psicólogos e ex-inspectores da polícia. Também determinados jornais, pouco dedicados ao verdadeiro jornalismo, mais voltados para as questões sociais, raros são os dias em que não abordam, logo em primeira página, a criminalidade crescente em que está mergulhada a sociedade. Desde os crimes com crianças, passando pela violência doméstica, parece estar na moda a violência dos filhos para com os pais, normalmente idosos, reformados e doentes.
Se qualquer espécie de crime deve ser condenado a violência entre pais e filhos choca-nos particularmente e faz-nos perceber que não é por se ter aumentado a escolaridade obrigatória para doze anos que a educação da população melhorou. Poderá haver mais instrução, mais conhecimentos mas a educação regrediu, talvez ma mesma proporção. Ao consumo de álcool, comum nas gerações dos nossos pais e avós juntou-se o consumo de drogas que vieram acabar com o respeito entre gerações, provocando uma total degradação nas relações entre os mais novos e os mais velhos.
Nas gerações mais antigas o respeito pelos mais idosos era cultivado no dia-a-dia, quer em casa quer na escola e até na igreja.
Desde a bênção ao pai, à mãe, aos avós e tios, ao bom dia, boa tarde aos professores, que por vezes soava a exagero até às horas marcadas para as refeições e para as chegadas a casa, tudo isso contribuía para um certo culto e respeito pelos mais velhos. Tudo coisas que, entretanto, passaram de moda.
A recente liberalização das relações, caída de repente no seio de gente impreparada e ciosa de uma liberdade desrespeitada, criou a ideia de que tudo é permitido e daí à violência gratuita foi um instante. Violência que com o passar dos tempos foi aumentando de tom, provocando um crescendo de crimes que nos eram desconhecidos, apesar do constante argumento das autoridades de que as estatísticas indicam um decréscimo da criminalidade.
Matar um idoso para roubar tornou-se uma banalidade e é raro o dia em que mais um caso não seja anunciado. O móbil do crime normalmente está associado ao álcool ou à droga. Falta o dinheiro para o vício e tudo parece ser permitido para obtê-lo.
Hoje, já ninguém proclama o ditado inúmeras vezes repetidas pelo meu avô, vingando a ideia de que passado é passado e que o futuro é para a frente, esquecendo que só existe futuro porque houve um presente que rápidamente se tornou passado.
“Filho és, pai serás, assim como fizeres assim terás”.
Rui Nunes