Em Portugal, ao invés do que sucede em países de tradição democrática mais madura, o estatuto de escriba livre ainda não é para todos. Apenas aqueles que vivem do que escrevem e os que têm independência material podem dizer o que pensam. Pensando assim, só há um caminho. Mentir. Pregar falsas morais, falar sobre o que se vai sabendo de África, da América Latina, da Rússia, das diatribes de Maduro (falo do verdadeiro), do estado islâmico, enfim … Escrever a verdade, com a responsabilidade empresarial que tenho, com o número de pessoas que já dependem das empresas que dirijo, é quase uma irresponsabilidade. É verdade que as críticas que faço são mordazes. É verdade que chamo, como dizemos entre nós, “os bois pelos nomes”. Há mesmo um ou outro caso em que acho que exagero e um ou dois visados sobre quem já escrevi e a quem não me importaria de pedir desculpa pela excessiva frontalidade. Até porque poderia ter-lhes dito pessoalmente o que disse no artigo e ficavam as coisas entre nós. Mas, há um ponto em que não admito desacordo: não traio! Depois, há a limitação da prosa quando temos - e gostamos de ter – muitos amigos. Uns são amigos de outros, outros são amigos de uns, estes últimos são amigos dos primeiros e quando damos por ela acabamos escrevendo sobre alguém que encontramos ao jantar, na semana seguinte, em casa de A, B ou C – com maiúsculas tão grandes quanto a Amizade que nos une. E o jantar cai mal a todos ... Por último há a questão dos negócios. “Ó Dr., eu até trabalhava consigo, mas, bem vê, os seus artigos ... Sabe, é que fulano tem muito poder.” Por mim, que já fiz um pouco de tudo, ter dinheiro ou não ter dinheiro, desde que as bocas lá de casa não passem fome, possam ir à escola e ter dinheiro para cuidar da saúde, tanto se me dá, como se me deu. Mas os trabalhadores que comigo constroem as empresas, aqueles que comigo partilham a gestão dos projectos em que estamos envolvidos e os Clientes que sempre nos deram a honra de contribuir para que tenhamos criado postos de trabalho qualificado, as empresas que a montante e a jusante podem falar da forma como nos relacionamos, fazem-me repensar a liberdade. O 25 de Abril, em matéria de escrita, poderia acabar, para mim, já hoje. No pensamento, não havendo machado que lhe corte a raiz, que é como quem diz, doença que me afecte, serei sempre livre. Por vezes, penso em desistir. Em nome disto tudo. Mas, desde ontem, desde que soube que tinha ido a uma reunião no conselho superior (disso, pelos vistos, só tinha o nome) do Grupo Espírito Santo, a convite deles, e que a reunião tinha sido gravada sem ninguém me avisar do facto, fiquei triste. E quando fico triste com gentinha que deveria ser crescida, fico simultaneamente certo do percurso que faço. Não nasci debaixo da ponte nem fui acolhido por ordem nenhuma religiosa que me tivesse dado o nome. Não tenho milhões em lado nenhum, nunca beneficiei de programa algum de repatriamento de capitais, não tenho ar de aristocrata nem pose de senhor distinto (ou diz tinto) mas há uma coisa que tenho: coluna vertebral. Vou continuar a dizer o que penso!
António Cunha Vaz