As manifestações de cariz cultural nos últimos tempos na nossa região foram motivo de muita discussão principalmente nas redes sociais e foi interessante verificar como a criação artística pôde despoletar tanta polémica. A iluminação de final do ano e a estátua dedicada ao melhor jogador de futebol do mundo, Cristiano Ronaldo, foram dois exemplos cujo resultado ficou muito aquém das expetativas. Por outro lado despertou nos madeirenses o espírito crítico que de certa forma foi positivo uma vez que se verificou que a cultura não é assim tão desprezível como o Estado e os nossos governantes julgam na maioria das vezes. Lamento o facto da nossa sociedade não se expor com maior frequência e convição perante outras situações desumanas e preocupantes da nossa realidade. Nestes dois casos, a iluminação do final do ano 2014 bem como a estátua dedicada ao Cristiano Ronaldo foram executadas através de convite, quando seria muito mais democrático a realização de concursos públicos. Num passado recente os concursos públicos para a criação de monumentos na região não eram na sua maioria realizados pelo artista vencedor, uma vez que as regras não eram colocadas em prática. Com o passar do tempo caiu em desuso e atualmente, de forma descarada e facilitadora passou-se ao convite direto aos criadores do regime. Presentemente e segundo o que nos fazem crer, no futuro viveremos uma nova era política na nossa região o que leva a pensar que os renovados governantes deverão colmatar esta lacuna e assumir a plena realização dos concursos com regras bem definidas à priori evitando desta forma o compadrio. Em Paris começamos o ano de 2015 com um atentado ao berço da liberdade, da democracia e dos direitos humanos num ataque contra a cultura da liberdade. Numa sociedade livre e democrática é preciso permitir, respeitar os traços implícitos e os bem explícitos da liberdade de expressão sem esconder os limites, por forma a descobrir novas alternativas e mudanças sem medos. O jornal satírico Charlie Hebdo foi alvo de muitas tentativas de censura que acabaram não concretizadas no papel como faziam os cartoonistas mas através de um massacre sangrento. No entanto sabemos que esta forma de atuação felizmente não erradica a liberdade de expressão, pois acaba por sair ainda mais reforçada, bastando para isso verificar que a edição mais recente do jornal satírico intitulada “jornal dos sobreviventes” ultrapassou três milhões de exemplares vendidos, antes os sessenta mil habituais e que esgotaram por completo. Estes atentados à liberdade de expressão acontecem infelizmente em toda a parte e em todos os momentos com maior e menor dimensão. Na nossa região não é exceção. Por isso é importante estarmos atentos por forma a combater a corrupção e a desonestidade sem cobardias. A forma de o fazermos é revelando coragem evitando a cumplicidade e desta forma não cedendo às pseudo-políticas culturais. A arte útil age positivamente na sociedade suscitando reações a exemplo do que aconteceu com o jornal satírico de Paris. O mundo só avança com pessoas irreverentes que introduzem rupturas criando a diferença. A verdadeira ARTE raramente está na moda, mas quase sempre incomoda. Um feliz ano de 2015 com verdadeiras mudanças principalmente na área cultural.

Patrícia Sumares