Pois! Depois de anos de injúrias pessoais mútuas, mutuamente agora alcunhadas de diferenças políticas em tempos de campanha interna, está tudo ‘unido’. Os de ontem e os de hoje sentem-se irmanados pela ‘pujança’ e pela ‘vitalidade’ do partido. Desapareceram os ofendidos e regeneraram-se os ofensores, uns e outros com muito em comum – todos, mas mesmo todos, tiveram sempre uma atitude arrogante e insultuosa para quem não esteve de acordo com eles, para quem propunha outro caminho para o desenvolvimento da Madeira. Aliás, é preciso ser claro: o novo líder indignava-se muito – é que não havia o direito de ser assim tratado, ele, que era companheiro de partido –, mas apenas porque era ele e os seus amigos que estavam em causa. Nunca questionou esse comportamento quando os alvos foram adversários políticos. Alguma vez se sentiu chocado quando houve pessoas acusadas de traidores e abutres? Não. Estava distraído quando as humilhações e as perseguições, nem sempre dissimuladas, eram o pão-nosso-de-cada-dia? Não! Distanciou-se um centímetro que fosse quando a ordinarice tomou o lugar da crítica? Não! Combateu esse ‘nó górdio’ que é a prática do insulto e da calúnia, uma pesada e entranhada herança cultural do jardinismo? Não! Até porque se alguém pensa que classificar pessoas como ignorantes e incompetentes era exclusivo do antigo líder, desengane-se; no fundo, a questão é só de estilo: uns usam punhos de renda, outros preferem o cheiro a pólvora. Mas, responsáveis por conduzir este território à situação económica e social em que se encontra, com a intolerância e a falta de respeito difundidos por cada canto, não se arrependem nem se retratam. Nem uns, nem outros. Aliás, para quem acha que agora é que é, que tudo será diferente, gostaria de lembrar a afirmação do líder recém-eleito no discurso final «este congresso é a primeira derrota dos nossos adversários políticos». Sintomático, a fazer gelar os que tinham ilusões de que o congresso seria o primeiro passo para a derrota dos princípios e da prática do jardinismo. A eleição do novo líder resulta de que muita gente estava realmente cansada do anterior; e os que não estavam, rapidamente perceberam que o melhor era apresentarem-se como ‘cristãos novos’. E assim vamos continuar a vê-los durante o tempo em que as ilusões campearem e as promessas encherem os ouvidos. Porque, não esqueçamos, mesmo quando as vacas são magras, e a incógnita do futuro mais que muita, “The fragance of Power” é tentação arrebatadora para muitos. Uns amigos meus, com quem travei uma daquelas inúmeras conversas que encheram os dias à volta do congresso do PSD-M, face à minha manifesta falta de confiança na capacidade, na credibilidade e na verticalidade política do líder agora eleito, diziam-me: «Nas próximas semanas, cose a boca. Olha que está tudo a viver a segunda dose de uma ‘primavera marcelista’». Pois! Pelo que se vê, não consegui obedecer por muito tempo. Mas pelo menos faço deste espaço a expressão do meu sentir e da minha opinião. Não um espaço politicamente correcto, inócuo, cheio de meias águas. Como Nota final e para os mais novos, para aqueles que desconhecem em absoluto o que foi a ‘primavera marcelista’, aqui fica a ‘dica’: foi o período inicial da governação de Marcelo Caetano, que sucedeu a Salazar. Com ele veio um mundo de ilusões, de promessas de ruptura com o passado e a expectativa – para tanta gente – da reforma do regime, do fim da guerra colonial. Com ele vieram as “Conversas em família”, monólogos televisivos a prometer a mudança e a abertura, a melhoria das condições económicas e sociais. Vieram também as grandes greves dos estudantes e as importantes lutas operárias. Rapidamente se agudizou o desemprego, a emigração, a miséria. E a repressão e as perseguições. Foi a altura das cadeias cheias de presos políticos. Por tudo isto, acabaria por chegar 1974. E o golpe militar de Abril. Pois! É preciso não esquecer a História. Que, ainda que não se repita, nos ensina sempre muito.

Violante Saramago Matos