Maria de Fátima M. O. Gouveia Soares Fomos surpreendidos pelas últimas notícias do D.N. que aqui nos chegam com dias de atraso, com a inesperada notícia da morte do grande Maestro Eurico Martins, uma perda valiosa da cultura musical madeirense (só?) contemporânea. Lemos a pequena nota do dia 29 de Dezembro, e depois no dia seguinte, a grande notícia na secção dos 5 Sentidos. Parecia-nos inacreditável, que um homem bom que fez uma grande obra, levando a Orquestra de Bandolins da Madeira a um nível ímpar, com actuações na nossa Ilha, no Continente, na Grã- Bretanha para sua Majestade Isabel II, e muitas mais partes do mundo, desaparecesse tão inesperadamente da nossa companhia. Conhece-mo-lo em meados dos anos 90 do século passado, no Anadía através o Dr. João Maurício Marques, numa altura em que havia lá um pequena livraria com livros de autores madeirenses, cd´s, tudo o que dizia respeito aos valores culturais da Madeira. Houve desde logo uma empatia, uma vez que o meu avô Francisco Bento de Gouveia, nos anos 20, fora primeiro bandolim no Septeto Passos de Freitas. Daí para cá, conversávamos sempre, e chegamos a oferecer-lhe, inclusive, umas cópias de músicas dedicadas ao meu avô, tudo para cordofones. Quando de uma exposição temática sobre meu avô Francisco Bento de Gouveia, uma homenagem a esse homem genial, multifacetado, pai do escritor, convidamos o Maestro e a sua Orquestra a irem a Ponta Delgada dar um concerto na abertura dessa exposição. A Casa do Romeiro, onde tudo se realizou devido à exiguidade de instalações na Casa-Museu, foi pequena para o público que ali acorreu para assistir a esse concerto que foi simplesmente maravilhoso. Ao longo dos 30 anos pós falecimento de meu pai, 23 de Maio de 1983, mais do que uma vez assistimos aos seus concertos quando a estadia na Ilha nos permitia, quer no Museu das Cruzes quer ultimamente na Igreja Inglesa ao Quebra-Costas. Quando há dois anos comemoramos o trigésimo aniversário do falecimento de meu pai, falámos com o Maestro que tinha um concerto agendado para essa data e a nosso pedido esse concerto foi dedicado à memória do homenageado. Salão repleto como habitualmente de estrangeiros e alguns madeirenses, foi como sempre, uma noite inesquecível. Após o concerto neste último Verão, em 5 de Setembro, desta vez data de nascimento de meu pai, fomos assistir àquela que para nós foi a sua ultima exibição. Saímos maravilhados, cada concerto era um êxito e uma enchente. Obrigada, Maestro, por tudo o que nos proporcionou, pela sua amizade, pela partilha nestas homenagens-memória, sempre amável, sempre acolhedor, cada vez mais profissional. O seu nome e a sua obra não serão esquecidos, e o exemplo surgiu após o seu funeral, esse magnífico e memorável concerto de Ano Novo, sob a regência de seu filho André Martins, que demonstram a sua eterna vivência. Que descanse em paz. P.S: A toda a família enlutada, os mais sentidos pêsames em nome da Direcção da Casa-Museu Dr. Horácio Bento de Gouveia, em Ponta Delgada.