O circo foi montado. A proibição da Câmara Municipal restringiu-se aos animais. Fico pensando que talvez devesse abranger os acrobatas.

Na aula de ginástica havia os corredores de fundo e os acrobatas. Estes eram versados na cambalhota. Com enorme facilidade, erguiam os pés do chão, dobravam o corpo, rodopiavam sobre si mesmo e num ápice voltavam ao chão, na vertical e com pés unidos. Alguns vaziam-no até sem qualquer apoio, desenhando acima do solo uma volta completa. Os mais ousados ainda se atreviam, a conseguir a cambalhota para a retaguarda, num movimento de flic flac verdadeiramente impressionante.

Nunca consegui realizar essa proeza. Dizia o professor que talvez fosse um problema de coluna. Demasiado rígida ou pouco flexível. Para mim, o facto da raça humana ter conseguido atingir o estado vertical, pouco se compaginava com esses movimentos de contorcionismo que eu assistia nos outros. Sempre gostei mais de correr, mesmo que fossem longas as distâncias .

Nessas aulas, a cambalhota era dada pelo prazer do exercício e com a finalidade de atingir o objectivo de voltar à posição vertical sem cair. Era um feito e uma realização.

Em meados deste Dezembro a prática da cambalhota cresceu. Muitos daqueles que nos habituamos a ver de cabeça levantada, quase até como se tivessem engolido um pau de vassoura, surpreenderam-nos com a capacidade de cambalhotar por esses espaços públicos. O último fim de semana foi um verdadeiro desfile de cambalhotas.

Mas as cambalhotas, nestes casos, perderam a graciosidade e a elegância. Já não são movimentos naturais resultantes da habilidade e do treino, mas tresandam a frete. Dar a volta sobre si mesmo, transformou-se numa necessidade para se conseguir continuar de pé e ter o aplauso e o reconhecimento público. Já não é uma arte que apreciávamos, mas antes um gesto contra-natura onde os objectivos vão para além da sua realização. A cambalhota é o novo passe para se conseguir manter o que se tem ou para merecer as graças de quem, a destempo, já anda a distribuir benesses.

Mais do mesmo, infelizmente! Os contorcionistas da política trazem uma felicidade momentânea, própria dos momentos circenses. Suscitam aplausos na arena e risos na galeria. Quanto mais atabalhoada e esforçada for a cambalhota, mais gargalhadas e palmas se ouvirão. E fazem levantar em gáudio e êxtase, se a pessoa a saltar for uma verdadeira surpresa.

Muitas cambalhotas no mesmo espaço e ao mesmo tempo é um festival de ginástica, não pode ser uma reunião onde se discuta o futuro com seriedade. Pode agradar aos olhos mas não encanta as vontades.

Essas cambalhotas para além de revelarem a flexibilidade da coluna podem trazer um amargo de boca que perdura no tempo. Uma vez dada a cambalhota, fica o gosto para, quando se tornar outra vez necessário, experimentar novamente. A prática sucessiva pode aumentar a destreza mas diminui o tempo de intervalo entre uma e a seguinte e revela a falta de seriedade das primeiras. O efeito surpresa esvai-se e fica a trágica ideia de que afinal mais não é do que um “sempre-em-pé” que as executa.

A renovação com cambalhotas é “tapar o sol com a peneira”. É involucro novo em produto velho. Num dia esta terra vai dispensar as cambalhotas. Num dia vai reconhecer-se que o serviço à causa pública é questão de mérito e não de contorcionismo.

Muitos acreditavam que o salto cultural de desprendimento e abertura viria aí. O tempo não foi perdido mas ficou a lição. Quem julgou que estava no fim da história concluirá que estava muito enganado.

Ricardo Vieira