O ano de 2014 foi marcado por vários episódios únicos na história da nossa democracia. No ocaso de uma crise que parece não ter fim 2014 trouxe alguma esperança. Pela primeira vez o país dá sinais de se conseguir libertar dos interesses privados e pessoais de uma corte que foi responsável por três cenários de bancarrota que aconteceram em democracia. Esta troika perversa constituída pelos interesses privados, pelos políticos profissionais e pela falta de cultura e cidadania.

O primeiro vértice desta troika perversa são os interesses privados. Não tenho nada contra a iniciativa privada muito pelo contrário. Mas os interesses de pseudo-empresas que vivem protegidas da verdadeira concorrência externa, à custa de jogos de influência e negociatas com a conivência política não se pode sobrepor ao interesse público. Os casos do BES e da PT são disso uma evidência clara. A crise começou com o BPN, esperemos que termine com o BES. Em ambos os casos estão escândalos de muitos milhares de milhões de euros que deviam ser a prioridade de investigação de todos os auditores deste país. Não se compreende que os organismos públicos continuem a ser torturados com burocracias inimagináveis, que asfixiam o serviço público, ao mesmo tempo que as grandes golpadas acontecem sem que a regulação detecte ou atue. Burocracias que emanam de leis encomendadas pelo Governo aos grandes escritórios de advogados que depois lucram à custa dos “serviços privados” que vendem como consequência da teia legislativa que ajudaram a criar. Não se compreende que grandes empresas que nasceram de monopólios públicos e com importância estratégica para o país sejam privatizadas para serem depois utilizadas em negócios financeiros ruinosos para terminarem vendidas ao desbarato a interesses estrangeiros.

2015 poderá ser um ano de esperança se as leis e os auditores deixam funcionar os Hospitais, as Universidades e os serviços públicos que todos precisamos que funcionem, com responsabilidade principalmente pelos resultados e pela eficiência dos recursos públicos que lhes são entregues. O problema não está no procedimento para comprar papel higiénico (quando há) mas sim na qualidade do serviço público prestado. O problema não está nos dirigentes intermédios, mal pagos, que vivem apavorados pela responsabilidade de cada assinatura inócua se poder transformar num crime grave sujeito a multa. Um hospital com relatórios de auditoria impecáveis que deixar morrer doentes, porque não pode comprar medicamentos ou contratar médicos para urgências, não serve para nada. Uma Universidade com um corpo docente envelhecido sem laboratórios e investigação que forma para o desemprego pode ter um relatório de contas exemplar mas não serve para nada. 2015 poderá ser um ano de esperança se empresas em Portugal com dimensão estratégica forem colocadas ao serviços dos interesses do país e utilizadas como alavancas para a criação de núcleos de excelência um pouco por todo o país. Mais importante do que serem públicas ou privadas é serem obrigadas a um compromisso estratégico com o interesse público que as permitiu existirem. Estas empresas devem servir para ajudar a lançar pequenas startups que tirem partido do enorme capital humano que o país tem. Essas pequenas empresas devem ser tratadas pelo estado com confiança e carinho porque é nelas que reside o potencial de futuro.

Libertar o país deste primeiro vértice dos interesses privados é fundamental para conseguirmos que 2014 seja o início de alguma coisa. Ganhe quem ganhar as várias eleições de 2015 há muito para mudar e construir se nos conseguirmos libertar destes interesses de uma vez por todas. Mas isso exige uma nova classe política de pessoas com visão, qualidade e verdadeiramente independentes dos interesses que capturaram o estado desde que somos uma democracia. Milhares de portugueses pagaram e ainda pagam uma factura insuportável pelo ajustamento que sofremos nos últimos anos. Hoje é claro que essa factura se deveu a decisões ruinosas de políticos sem capacidade para se libertarem da embriaguez do poder e do canto de sereia dos interesses financeiros, dos lóbis sectoriais e mesmo dos nossos parceiros europeus. 2015 poderá ser um ano de esperança se conseguirmos eleger políticos responsáveis, capazes de mobilizarem pessoas competentes e com provas dadas e comprometidos com uma agenda de desenvolvimento sustentável. Existem muitas pessoas com valor e sentido de serviço público em Portugal.

Alguns são políticos no terreno mas outros são simplesmente pessoas capazes com profissão e vida para além da política e que podem e devem ser chamadas a contribuir para nos libertarmos desta troika. O sistema partidário tem que compreender isto rapidamente porque caso contrário acabamos como a Grécia ou a Espanha ao sabor de mais experimentalismos irresponsáveis. O experimentalismo cruel da austeridade não pode ser substituído pelo experimentalismo radical da utopia. Como em tudo na vida a solução é conseguir aprender com as graves lições do passado e encontrar um equilíbrio sustentável.

Aqui reside o terceiro vértice da troika o da cultura e da cidadania. Faço parte de uma geração que apanhou com a mais grave crise de sempre no auge da vida profissional. A geração dos meus pais viveu a guerra colonial e a transição para a democracia antes de ter atingido a meia-idade. De certa forma tiveram um princípio muito mais duro e agora um fim complicado embora já libertos de muitas responsabilidades. Mas viveram o auge num período de prosperidade sem precedentes e infelizmente penso que sem consequentes. A minha geração e as seguintes são as mais qualificadas de sempre e têm uma enorme responsabilidade em garantir que 2015 possa ser o princípio de uma grande mudança na sociedade portuguesa. Uma mudança que deve acontecer pelo lado da cidadania saudável, interventiva e comprometida. Uma mudança que deve acontecer por uma geração qualificada com experiência num mundo globalizado e altamente competitivo e não de protecionismos bacocos. Confesso que sou suspeito mas encontro uma diferença abismal entre as gerações dos anos 50 e 60 e as gerações seguintes. Esta é obviamente uma generalização para a qual existem com certeza muitos exemplos contrários, incluindo em políticos ativos ou candidatos. Mas as gerações de 50 e 60 são muito marcadas, ou pela tradição burocrática do antigo regime, ou pelos devaneios revolucionários do pós 25 de Abril. É determinante mobilizar as gerações dos anos 70 e 80 para uma nova agenda para Portugal. Sem essa consciência cívica não será possível garantir um futuro à geração dos nossos filhos. Bom Ano de 2015. * Presidente do Madeira-ITI

Nuno Nunes