
1 - Ia escrever sobre os atentados asquerosos que mataram cartonistas, polícias e membros da comunidade judaica de França, mas a monstruosidade do crime torna a nossa opinião tão pequena e insignificante que pensei melhor. Quem sou eu para falar de gente com a coragem de Charb e dos outros cartonistas que aprendi a reconhecer por ter este problema de maturidade que é continuar a ser um consumidor crónico de banda desenhada. De que serviria a minha opinião para falar de quem levou à prática a frase de Emiliano Zapata ‘antes morrer de pé do que viver sempre de joelhos’. Fico apenas com uma grande dúvida: não sei se desprezo mais os assassinos do que aqueles que dizem ‘eles, os cartonistas, deveriam ter mais cuidado’, não deveriam ‘ofender susceptibilidades’. É difícil dizer algo mais cobarde. 2 - Mas se o Charlie está muito acima das nossas pequenas opiniões, há coisas que já não estão. Escrevo este texto antes da abertura do congresso do PSD onde, tenho a certeza, vou presenciar alguns dos maiores exemplos de hipocrisia. Gente que há bem pouco tempo insultava, queria expulsar e tratava da pior maneira possível Albuquerque e os que lhe são próximos, vai estar na primeira linha dos apertos de mão, das pancadas nas costas. Ao novo líder compete aceitar os abraços de Judas sem vomitar. Agora, por mais estranho que possa soar, até o Jornal da Madeira vai repetir a frase ‘Somos todos Albuquerque’.