O tema já foi alvo de várias incursões jornalísticas e, a fazer fé nas autoridades policiais, também já terá sido seguido pelos investigadores criminais. Não deve haver ninguém que já não tenha reflectido um pouco sobre estes casos desoladores, porque ‘tropeçamos’ neles todos os dias nas nossas ruas. O problema é que nos preocupamos durante cinco míseros segundos e seguimos em frente. Refiro-me aos pedintes que se colocam em pontos estratégicos das ruas do Funchal. Uns explorando deficiências visíveis, outros dissimulando-as para cativar os cinco segundos que cada um de nós lhes dedica, que é o tempo que medeia entre o aproximar do local onde abancam e o momento em que os deixamos para trás. Nesses cinco segundos não há tempo para nos apercebermos que aquilo não é mais do que um negócio. Um negócio rentável, pelos vistos, explorado por gente sem escrúpulos. Para além de não terem escrúpulos, parece que também não deixam rasto. Os profissionais da pedincha, mais os que exploram do que os que se expõem e pedem, lidam profissionalmente com o estratagema. Sabem que as desconfianças e as perguntas dos mais afoitos duram muito pouco. Tal e qual como a validade deste escrito. Nem mais, nem menos. Os pedintes, uns sem braços, outros sem pernas, parecem todos oriundos de países de Leste. Ninguém quer saber como aqui chegam, quem os orienta, quem lhes faz a ‘caixa’, onde depositam, quem se apodera dos seus documentos. Que devem ser os mesmos que os recolhem ao fim do dia para devolvê-los à rua no dia seguinte, certamente noutro local, porque a estratégia passa pela rodagem constante. Nos cinco segundos que cada um de nós dedica ao assunto não há espaço para responder a todas as perguntas. Simplesmente passamos à frente. E como são mais do que muitos os que preferem atirar uma moedinha a reflectir no seu gesto, vamos todos adiando o problema. Ninguém resolve, ninguém se empertiga, ninguém desconfia do esquema. E quando alguém faz perguntas ou levanta dúvidas, os profissionais da pedincha, que assistem à distância, sabem muito bem como lidar com a situação: dão um ou dois dias de ‘folga’ ao mendigo alvo da suspeita e no regresso mudam-no de zona. Quem se empertigou no outro dia, já está noutra nesse regresso. Cinco segundos não dão mesmo para nada. Nem para nos inquietarmos. E se forem cinco segundos e uma moedinha até ficamos com a sensação que ajudámos. Amanhã é outro dia. E a seguir vem outro.