«Por vezes há um divórcio… Não podemos ter a Igreja do povo e a Igreja do clero» A Madeira algumas vezes faz-se passar por ser o umbigo do mundo. Um exagero que é transversal a quase todos os quadrantes da sociedade madeirense. Nos últimos tempos esta ideia tem sido sobejamente propalada. Primeiro foi aquela coisa do «deve e haver» de 500 anos que se traduziu em muita parra e nada de uva. Uma invenção para nos desviar a atenção do absurdo em que se converteram os custos da irresponsabilidade que levou a gastos astronómicos em tanta coisa inútil que se fez nesta terra à conta de «engenharias financeiras». Outro momento em que pareceu que a Madeira é o umbigo do mundo foi este do congresso dos 500 anos da Diocese do Funchal. Continuo a insistir que foi pena não termos feito um Sínodo, algo que faz parte da tradição da Igreja Católica e para o qual a Igreja tem uma metodologia bem definida e experimentada. Revelou-se um momento de encontro interessante, mas muito grande para a nossa dimensão. É certo que há muita gente a estudar esta realidade «ilha da Madeira» e particularmente a Igreja da Madeira, mas não lhe dá a dimensão de «Global», aliás ideia muito bem desmontada pelo Bispo Emérito do Funchal D. Teodoro de Faria nas páginas do católico Jornal da Madeira. E como está na moda a «engenharia financeira», veio a talho de foice a expressão «engenharia pastoral» na Agência Ecclesia, dita pelo bispo D. Francisco Senra Coelho, recentemente ordenado e nomeado auxiliar de Braga, no Funchal, à margem do Congresso sobre os 500 anos da Diocese. Aí destaca a necessidade de rejeitarmos a «engenharia pastoral» e alimentar uma «relação muito direta com o povo», porque «Por vezes há um divórcio… Não podemos ter a Igreja do povo e a Igreja do clero». Certo. Porque não refletem isto nas constantes reunião episcopais… Temos que arrepiar caminho, deixar este boom de actividades centradas e centralistas, dar atenção às comunidades, às pessoas, para que a Igreja da Madeira que já não será seguramente «metade da história da Madeira» daqui a mais 500 anos, mas que não seja apenas e só uma «nota de rodapé», por isso, disse o bispo Senra Coelho, inspirado pelas palavras do Papa: «Não podemos ser uma Igreja que se limita a ter portas abertas, mas temos de ser uma Igreja em saída». Temos que descobrir juntos o como fazer isso. Este mega congresso também não o revelou. Por isso, este congresso entre os vários eventos celebrativos dos 500 anos da Diocese do Funchal, tratou-se de uma «engenharia pastoral», porque não pensou em termos do passado o cristianismo na Madeira, mas apenas e só o catolicismo, que em nada é todo glorioso, mas como toda a história tem luz e escuro, réstias e sombras, virtudes e defeitos… Por isso, podemos dizer que nesta passagem dos 500 anos da Diocese tivemos muito discurso e muita conversa à volta do catolicismo, mas pouco acerca do Cristianismo na Madeira e isso a meu ver é o que interessava mais ser refletido para nos lançar no futuro. Não deve ter sido a despropósito que tenha surgido esta pergunta: «O Cristianismo terá futuro»? – Perguntou o Padre Tolentino Mendonça, no Expresso do dia 20 de setembro. Aí coloca o dedo na ferida, lembra o grande teólogo Karl Rahner, que propõe três coisas acerca do cristianismo, uma que voltaria a ser «formado por pequenas comunidades», outra que a adesão à fé seria «pessoal, livre, maturado e esclarecido» e ainda outra, o cristianismo «perdeu relevância política e estratégica, mas reganhara espaço para afirmar o santo poder do coração». O Papa Francisco está na linha do grande teólogo. É pena que outros ainda continuem a sonhar com um catolicismo descristianizado de massas e de cruzadas. Assim, espero que a «engenharia pastoral» que inspirou o neo antístite fosse menos o «jogo» do activismo em grande que «pensa pouco nas pessoas», como já alertou também o Papa Francisco, mas também que fosse mudanças concretas, nos métodos da catequese, na agilidade dos sacramentos e das regas, no aperfeiçoamento do acolhimento e do encontro, para que findem os casos terríveis do mau acolhimento e os fardos que são lançados às pessoas que se abeiram da Igreja à procura de solução de um problema e regressam para casa com dez problemas às costas. Se a «engenharia pastoral» significar que vamos mudar algumas práticas sacramentais onde a misericórdia se sobrepõe às leis então vamos longe, teremos mais cristianismo e menos catolicismo. Entre nós deixemo-nos de histórias. Nenhum congresso, estudo ou outra engenharia, farão da Madeira nem muito menos da Igreja da Madeira, serem, terem sido e virem a ser o umbigo do mundo. Somos o que somos, vamos para frente. José Luís Rodrigues

«Por vezes há um divórcio… Não podemos ter a Igreja do povo e a Igreja do clero»

A Madeira algumas vezes faz-se passar por ser o umbigo do mundo. Um exagero que é transversal a quase todos os quadrantes da sociedade madeirense. Nos últimos tempos esta ideia tem sido sobejamente propalada. Primeiro foi aquela coisa do «deve e haver» de 500 anos que se traduziu em muita parra e nada de uva. Uma invenção para nos desviar a atenção do absurdo em que se converteram os custos da irresponsabilidade que levou a gastos astronómicos em tanta coisa inútil que se fez nesta terra à conta de «engenharias financeiras». Outro momento em que pareceu que a Madeira é o umbigo do mundo foi este do congresso dos 500 anos da Diocese do Funchal. Continuo a insistir que foi pena não termos feito um Sínodo, algo que faz parte da tradição da Igreja Católica e para o qual a Igreja tem uma metodologia bem definida e experimentada. Revelou-se um momento de encontro interessante, mas muito grande para a nossa dimensão. É certo que há muita gente a estudar esta realidade «ilha da Madeira» e particularmente a Igreja da Madeira, mas não lhe dá a dimensão de «Global», aliás ideia muito bem desmontada pelo Bispo Emérito do Funchal D. Teodoro de Faria nas páginas do católico Jornal da Madeira. E como está na moda a «engenharia financeira», veio a talho de foice a expressão «engenharia pastoral» na Agência Ecclesia, dita pelo bispo D. Francisco Senra Coelho, recentemente ordenado e nomeado auxiliar de Braga, no Funchal, à margem do Congresso sobre os 500 anos da Diocese. Aí destaca a necessidade de rejeitarmos a «engenharia pastoral» e alimentar uma «relação muito direta com o povo», porque «Por vezes há um divórcio… Não podemos ter a Igreja do povo e a Igreja do clero». Certo. Porque não refletem isto nas constantes reunião episcopais… Temos que arrepiar caminho, deixar este boom de actividades centradas e centralistas, dar atenção às comunidades, às pessoas, para que a Igreja da Madeira que já não será seguramente «metade da história da Madeira» daqui a mais 500 anos, mas que não seja apenas e só uma «nota de rodapé», por isso, disse o bispo Senra Coelho, inspirado pelas palavras do Papa: «Não podemos ser uma Igreja que se limita a ter portas abertas, mas temos de ser uma Igreja em saída». Temos que descobrir juntos o como fazer isso. Este mega congresso também não o revelou. Por isso, este congresso entre os vários eventos celebrativos dos 500 anos da Diocese do Funchal, tratou-se de uma «engenharia pastoral», porque não pensou em termos do passado o cristianismo na Madeira, mas apenas e só o catolicismo, que em nada é todo glorioso, mas como toda a história tem luz e escuro, réstias e sombras, virtudes e defeitos… Por isso, podemos dizer que nesta passagem dos 500 anos da Diocese tivemos muito discurso e muita conversa à volta do catolicismo, mas pouco acerca do Cristianismo na Madeira e isso a meu ver é o que interessava mais ser refletido para nos lançar no futuro. Não deve ter sido a despropósito que tenha surgido esta pergunta: «O Cristianismo terá futuro»? – Perguntou o Padre Tolentino Mendonça, no Expresso do dia 20 de setembro. Aí coloca o dedo na ferida, lembra o grande teólogo Karl Rahner, que propõe três coisas acerca do cristianismo, uma que voltaria a ser «formado por pequenas comunidades», outra que a adesão à fé seria «pessoal, livre, maturado e esclarecido» e ainda outra, o cristianismo «perdeu relevância política e estratégica, mas reganhara espaço para afirmar o santo poder do coração». O Papa Francisco está na linha do grande teólogo. É pena que outros ainda continuem a sonhar com um catolicismo descristianizado de massas e de cruzadas. Assim, espero que a «engenharia pastoral» que inspirou o neo antístite fosse menos o «jogo» do activismo em grande que «pensa pouco nas pessoas», como já alertou também o Papa Francisco, mas também que fosse mudanças concretas, nos métodos da catequese, na agilidade dos sacramentos e das regas, no aperfeiçoamento do acolhimento e do encontro, para que findem os casos terríveis do mau acolhimento e os fardos que são lançados às pessoas que se abeiram da Igreja à procura de solução de um problema e regressam para casa com dez problemas às costas. Se a «engenharia pastoral» significar que vamos mudar algumas práticas sacramentais onde a misericórdia se sobrepõe às leis então vamos longe, teremos mais cristianismo e menos catolicismo. Entre nós deixemo-nos de histórias. Nenhum congresso, estudo ou outra engenharia, farão da Madeira nem muito menos da Igreja da Madeira, serem, terem sido e virem a ser o umbigo do mundo. Somos o que somos, vamos para frente.

José Luís Rodrigues