Para um jovem músico, ganhar um concurso internacional significa abrir os caminhos até então fechados, alargar a perspectiva do seu futuro e, sobretudo, provar a si próprio que as horas de estudo na solidão, pela noite dentro, não passaram em vão. Um tal jovem entrega-se, nestes “momentos da verdade”, às mãos dos profissionais que compõem o júri cuja competência, imparcialidade e isenção estão, supostamente, inimpugnáveis. Será?
Uma recente onda de equívocos assolou internacionalmente a imagem e a mensagem que estes eventos deveriam transmitir aos jovens artistas, alguns dos quais, pelo que parece, já estão longe de serem “idealistas” e transformaram-se em “pragmatistas”, “oportunistas” e mesmo cúmplices daqueles que usam estas oportunidades sobretudo para avançar a sua própria carreira, prestígio e empregabilidade, uma vez que os professores “de nome e renome” que aparecem regularmente em júris dos grandes concursos chegam facilmente a solicitar, e a receber, quase 800 euros para uma aula de 45 minutos!!! Quem diz que não vale a pena?!
Vejamos! A vencedora do último concurso de violino de Indianápolis é aluna do presidente do júri. Ela foi uma das seis finalistas, cinco das quais foram da Coreia do Sul e quatro das quais foram alunas dos membros do júri. Um elemento do júri foi mesmo obrigado a escusar-se de avaliar a fase final quando foi revelado que a metade das finalistas foram alunas suas, facto que provocou uma carta aberta de um dos grandes violinistas dos nossos tempos, Aaron Rosand. Esta mesma vencedora já chegou a ganhar dois concursos internacionais, em Montreal e Buenos Aires, onde constavam do júri ora o seu professor da altura, ora o presidente da escola da qual ela se graduou. Coincidências a mais!
No último concurso “Georges Enescu”, a vencedora entre os violoncelistas é aluna do presidente do júri, no recentemente terminado concurso “Leopold Auer” em S. Petersburgo, a vencedora é aluna do presidente do júri e reitor do Conservatório, enquanto no último concurso pianístico “Fryderyk Chopin”, a vencedora foi uma pianista que participou em vários cursos de aperfeiçoamento administrados pelo presidente do júri.
Descarada, cínica e impudicamente, os tais pedagogos/empresários e concorrentes, continuam a conviver na confraria de Mamon, e pouco se importam com a indignação que estão a provocar.
Neste contexto, uma luz no fundo do túnel, e uma faísca de esperança para aqueles que ainda acreditam em algo que não seja bezerro de ouro, será o próximo concurso violinístico “Paganini”, onde não serão admitidos para o júri professores, mas sim directores artísticos das orquestras, agentes, maestros e jornalistas especializados.
Robert Andres