DIÁRIO publica texto de Raquel Gonçalves, lido na apresentação do livro, lançado esta terça-feira, 23.9.2014 Há quase três décadas que nos conhecemos, demasiada proximidade e demasiada vida para uma leitura distanciada. Foi no Girassol, tínhamos quinze anos, eu usava uma gravata de napa como os cantores da Revista Bravo e tu usavas uns laços fabulosos no cabelo. Tínhamos o futuro todo e ainda não sabíamos. Mas já nesse momento foi a memória que nos juntou. Tu querias fazer uma árvore genealógica e eu disse que te acompanhava. Até hoje. Contas tudo isto numa das tuas crónicas, e ao relê-la fico cheia de medo de falhar, de falhar-te. Por isso escrevo para que o erro atinja valores aceitáveis. E falo do livro, do teu livro. Lembro uma crítica a um outro livro que li um destes dias. Dizia mais ou menos isto: acabei de ler o teu livro e ele continua teu. Não se pode dizer o mesmo das Crónicas que a Nova Delphi agora edita e que foram publicadas nos últimos anos na Revista de Domingo do Diário de Notícias do Funchal. Os que leem as tuas crónicas não sentem que continuam a ser tuas. Sentem-se convocados para uma memória comum, e passam as crónicas a ser património colectivo, ponto de encontro, mapa que nos situa. Este extraordinário regresso a cassa só é possível com um mapa de coordenadas certas. E é um mapa da memória aquele que as crónicas de Marta Caires nos oferece. Sem o mapa, seria impossível o regresso a casa, a nós. É um mapa de afetos que nos convoca para um passado que julgávamos pessoal e intransmissível, mas que afinal faz de nós, sempre e ainda, esse bando de miúdos de joelhos esfolados que descem do Laranjal da Infância. Esse exato lugar onde vivíamos antes de nos terem instalado o GPS, e os cintos de segurança. Um lugar de muros altos, de árvores para trepar, voar e cair. Esse lugar com uma estrada a meio onde se contam os carros e as oportunidades de passagem. A aposta de chegar ao fim do dia intactos. Você está aqui! Diz-nos este mapa literário. A indicação geográfica que nos assinala a pele de onde viemos é o mais extraordinário das crónicas de Marta Caires. De repente, voltamos a ser todos vizinhos. De repente, todos nos conhecemos nesse passado. De repente, chegamos aqui e sentimos que o que nos pertence é comum. E, apesar disso, precisamos do mapa para chegar, precisamos do mapa para nos recordar o que fomos e somos. A Marta Caires e as suas crónicas foram esse mecanismo que nos ativou a memória. A máquina que, lá dentro, nos guiou para as coisas esquecidas, porque só elas, as coisas esquecidas, nos podem fazer lembrar. A literatura está cheia dessa importância de que se reveste a memória. Bastaria recordar dois autores. A desmemória de José Cardoso Pires, em De Profundis Valsa Lenta. Um homem que sem a memória passa a ser Outro, porque, e cito, “sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior e a interior... porque sem referências do passado morrem os afetos e os laços... porque a memória é indispensável para que o tempo não só possa ser medido, como sentido. Poderíamos ainda recordar a história de Funes, personagem de Jorge Luís Borges, o homem que nada esquecia, o homem que não só se lembrava de cada folha de cada árvore, como também de cada uma das vezes que a tinha notado ou imaginado. O mecanismo da escrita e da literatura é, ele próprio, um engenhoso processo de fixar a memória a um território mais duradouro, vencendo os sentidos que tudo alteram e refazem. Regressamos a este extraordinário regresso a casa, ao mecanismo, ao esquecimento necessário para que a memória seja possível. Este extraordinário regresso a casa, que representa também o regresso destas crónicas à CASA-LIVRO a que sempre pertenceram. Publicadas na imprensa foram sempre maiores do que a quotidiana duração de um jornal. Regressam agora, pela mão da Nova Delphi, ao livro que sempre enunciaram. Ao livro objecto, mapa que se dobra, que se guarda e que se usa como coisa nossa para que o desenho de nós mesmos se torne possibilidade real. E chegados aqui esperamos por mais. Esperamos que o quotidiano Diário de Notícias nos continue também a trazer a memória do passado para que possamos compreender o presente. E esperamos, é claro, mais livros, vindos de um tempo de tias sentadas à sombra da vinha, de um tempo onde o pronto-a-vestir não era ainda franschising, onde botas de águas não eram ainda galochas, onde as chinelas não eram ainda havaianas. Esperamos por ti, amiga Marta Caires. E eu, como todos nós, vamos contigo ao Arquivo da Memória. Já não te deixamos só no banco da escola, no intervalo de dez minutos que era a vida mais longa da adolescência. Raquel Gonçalves, Funchal, 23.09.2014 Fotos de Joana Sousa/Aspress
DIÁRIO publica texto de Raquel Gonçalves, lido na apresentação do livro, lançado esta terça-feira, 23.9.2014
Há quase três décadas que nos conhecemos, demasiada proximidade e demasiada vida para uma leitura distanciada. Foi no Girassol, tínhamos quinze anos, eu usava uma gravata de napa como os cantores da Revista Bravo e tu usavas uns laços fabulosos no cabelo. Tínhamos o futuro todo e ainda não sabíamos. Mas já nesse momento foi a memória que nos juntou. Tu querias fazer uma árvore genealógica e eu disse que te acompanhava. Até hoje.
Contas tudo isto numa das tuas crónicas, e ao relê-la fico cheia de medo de falhar, de falhar-te. Por isso escrevo para que o erro atinja valores aceitáveis. E falo do livro, do teu livro. Lembro uma crítica a um outro livro que li um destes dias. Dizia mais ou menos isto: acabei de ler o teu livro e ele continua teu. Não se pode dizer o mesmo das Crónicas que a Nova Delphi agora edita e que foram publicadas nos últimos anos na Revista de Domingo do Diário de Notícias do Funchal.
Os que leem as tuas crónicas não sentem que continuam a ser tuas. Sentem-se convocados para uma memória comum, e passam as crónicas a ser património colectivo, ponto de encontro, mapa que nos situa. Este extraordinário regresso a cassa só é possível com um mapa de coordenadas certas. E é um mapa da memória aquele que as crónicas de Marta Caires nos oferece. Sem o mapa, seria impossível o regresso a casa, a nós. É um mapa de afetos que nos convoca para um passado que julgávamos pessoal e intransmissível, mas que afinal faz de nós, sempre e ainda, esse bando de miúdos de joelhos esfolados que descem do Laranjal da Infância. Esse exato lugar onde vivíamos antes de nos terem instalado o GPS, e os cintos de segurança. Um lugar de muros altos, de árvores para trepar, voar e cair. Esse lugar com uma estrada a meio onde se contam os carros e as oportunidades de passagem. A aposta de chegar ao fim do dia intactos. Você está aqui! Diz-nos este mapa literário. A indicação geográfica que nos assinala a pele de onde viemos é o mais extraordinário das crónicas de Marta Caires.
De repente, voltamos a ser todos vizinhos. De repente, todos nos conhecemos nesse passado. De repente, chegamos aqui e sentimos que o que nos pertence é comum. E, apesar disso, precisamos do mapa para chegar, precisamos do mapa para nos recordar o que fomos e somos.
A Marta Caires e as suas crónicas foram esse mecanismo que nos ativou a memória. A máquina que, lá dentro, nos guiou para as coisas esquecidas, porque só elas, as coisas esquecidas, nos podem fazer lembrar. A literatura está cheia dessa importância de que se reveste a memória. Bastaria recordar dois autores. A desmemória de José Cardoso Pires, em De Profundis Valsa Lenta. Um homem que sem a memória passa a ser Outro, porque, e cito, “sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior e a interior... porque sem referências do passado morrem os afetos e os laços... porque a memória é indispensável para que o tempo não só possa ser medido, como sentido. Poderíamos ainda recordar a história de Funes, personagem de Jorge Luís Borges, o homem que nada esquecia, o homem que não só se lembrava de cada folha de cada árvore, como também de cada uma das vezes que a tinha notado ou imaginado. O mecanismo da escrita e da literatura é, ele próprio, um engenhoso processo de fixar a memória a um território mais duradouro, vencendo os sentidos que tudo alteram e refazem. Regressamos a este extraordinário regresso a casa, ao mecanismo, ao esquecimento necessário para que a memória seja possível. Este extraordinário regresso a casa, que representa também o regresso destas crónicas à CASA-LIVRO a que sempre pertenceram. Publicadas na imprensa foram sempre maiores do que a quotidiana duração de um jornal. Regressam agora, pela mão da Nova Delphi, ao livro que sempre enunciaram. Ao livro objecto, mapa que se dobra, que se guarda e que se usa como coisa nossa para que o desenho de nós mesmos se torne possibilidade real.
E chegados aqui esperamos por mais. Esperamos que o quotidiano Diário de Notícias nos continue também a trazer a memória do passado para que possamos compreender o presente. E esperamos, é claro, mais livros, vindos de um tempo de tias sentadas à sombra da vinha, de um tempo onde o pronto-a-vestir não era ainda franschising, onde botas de águas não eram ainda galochas, onde as chinelas não eram ainda havaianas. Esperamos por ti, amiga Marta Caires. E eu, como todos nós, vamos contigo ao Arquivo da Memória. Já não te deixamos só no banco da escola, no intervalo de dez minutos que era a vida mais longa da adolescência.
Raquel Gonçalves, Funchal, 23.09.2014
Fotos de Joana Sousa/Aspress




