Estás triste?
- Hum, hum... mais do que triste, decepcionado.
Ah sim? Então explica lá porquê.
- Sabes, apesar de ter plena consciência de que tudo na vida tem o seu tempo, que nada dura para sempre, que aquilo que fazia há vinte anos atrás já não é repetível, o que mais me entristece é que de certa forma, perdi a alegria. Isto apesar de supostamente estar a viver o sonho. De alguma forma, desviei-me do caminho e não consigo reencontrá-lo.
Não estás a dramatizar?
- Talvez. Estou exausto. Tem piada, não tanto fisicamente, mas mentalmente. Não digas nada a ninguém, mas estou farto de mim mesmo! Queres que te diga o que realmente se passa?
- Hum, não sei se quero ouvir isso. Tem cuidado por favor, sinto-me fragilizado...
Distraíste-te. Já não é a primeira vez que te vejo a fazer isso. Vais até um determinado ponto e depois vives de “rendimentos”.
- Achas?
Acho não, sei. E tu também sabes. Podes esconder-te nessa tua armadura que tão bem sabes construir, mas conheço-te bem. A questão é: o que é que vais fazer agora? - Não sei...
Lá estás tu! Claro que sabes! Não vale a pena chorares pelos cantos ou pela calada da noite. Não vai alterar rigorosamente nada! O mundo não vai parar por compaixão pelas tuas fraquezas.
- Mas pareço estar a remar contra a maré!
O ser humano é uma máquina maravilhosa auto-reguladora. Nada acontece por acaso. Estás simplesmente a criar oportunidades para te reencontrares. Tu és o responsável pela direcção dessa maré.
- Não sei se consigo...
Só depende de ti. E claro, podes sempre desistir. Mas vou-te dizer mais uma coisa ainda.
- Ui!
Relaxa. Vou ser simpática. O teu maior legado é a forma como sempre te entregaste aquilo que fazias! Não são as conquistas. Tudo efémero. É o teres provado, vezes sem conta, que se podia fazer algo bem feito com alegria, com paixão e com honestidade. Teres mantido essa identidade tão própria, tão particular e tão rara, durante tanto tempo, é não só espantoso, como único. Como se tivesses conseguido manter a inocência de quando eras criança. O facto de teres vindo de uma pequena ilha, plantada no meio do oceano, torna tudo mais bonito. Significa que qualquer um tem esse potencial. Pensa bem nisso!
- Obrigado. Tinha saudades de te ouvir.
Oh, eu estive sempre aqui. Tu é que não ouvias...
João Rodrigues