O título deste artigo, assumidamente pouco simpático, é sustentado numa frase da autoria de Miguel de Sousa, candidato a líder do PSD e vice-presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, assumida na entrevista ao DIÁRIO nestes termos: "Pela primeira vez na história da Madeira, uma geração vive pior do que a anterior. Nós já estamos a viver pior do que a geração anterior. Isto não é normal e deve ter responsáveis". Não só estou subscrevo a denúncia como me aproprio desse raciocínio na esperança de que mais alguém veja o que está à vista de todos: a próxima geração vai viver pior do que a anterior. E atenção que não sou eu que o digo, nem é nenhum perigoso esquerdista. É Miguel de Sousa, candidato a líder do PSD-Madeira e vice-presidente da Assembleia regional. Não é preciso recorrer a qualquer competência paranormal ou convocar alguma estranha capacidade de adivinhação para perceber que o futuro, nesta terra, não é muito risonho. É antes bastante sizudo, como o presente vem sendo. A esta altura os optimistas já mudaram de página à procura de coisas mais alegres, pensamentos mais positivos, cenários risonhos e festas para o fim-de-semana. Compreendo perfeitamente. Mas alguém tem de ser realista, por mais que esse estado de alma se confunda com o ser pessimista. Depois de anos e anos a gastar como se não houvesse amanhã, descobrimos recentemente que, afinal, esse amanhã existe mesmo. Pior: esse indesejado amanhã é já hoje. E agora andamos num circo onde entramos sem pagar mas do qual vamos ter de pagar para sair. E muito. E todos. A menos que apareça mais um ingénuo António Guterres na vida política portuguesa que mande registar numa pedra de gelo o gigantesco calote que fizeram em nosso nome. Sem esse perdão nacional, sem os milhões de uma Europa que já deixou de derramar dinheiro aos molhos, dificilmente sairemos deste sufoco, deste colete de forças em que nos meteram enquanto anunciavam o ‘pogresso’ a pataco. E agora descobrimos que o ‘pogresso’, embrulhado em 'pogramas' de Governo desenhado em sacos de cimento, tinha prazo de validade em letras pequeninas, como nos contratos dos seguros, e poucos leram que esse caminho estava errado, que o beco não tinha saída. É verdade que houve alguns que pensaram que isto podia acontecer, mas a esses o regime tratou de lhes colar rotulos de perigosos comunistas, de gente feita com a maçonaria e a formiga branca e mais a trilateral e os cubanos. Entretanto, talvez por uma mais do que evidente e tardia caducidade, começa a operar-se neste regime velho uma repentina transformação. É como se, ao mesmo tempo, o regime velho que estava cego e surdo, mas não mudo, começasse a ver e a ouvir, e a calar-se. Ainda bem, mais vale tarde do que nunca. O problema é que este aparente milagre já vem tarde. Muito tarde mesmo. Já não cura a dor do regresso à emigração, as feridas causadas por um desemprego assustador e uma conta pregada no tecto de cada família. Sim, infelizmente, a próxima geração vai viver pior do que a actual. Essa é a herança que vai caber a cada madeirense que, obrigado ou de livre vontade, consumiu jardinismo fora de prazo. E não é possível renunciar à herança.