Muito se tem falado de independência. No momento em que escrevo desconheço o resultado do referendo na Escócia. Mas seja qual for o resultado deste referendo, não embarco em entusiasmos pró-independentistas. Por uma razão simples. Constato que nos territórios onde existe uma forte corrente pró-independência, a razão de ser dessa vontade de separação tem muito a ver com uma razão egoísta: a de não quererem partilhar os seus recursos com o resto do País onde estão integrados. Na verdade, tratam-se de Comunidades bem prósperas e com um nível de riqueza muito significativo, aquelas onde alastra a vontade independentista. Para além da Escócia, temos os casos conhecidos da Catalunha, do País Basco, da Flandres e da Padania. Reconheço que em todos estas Comunidades existe um genuíno sentimento independentista, alicerçado em fortes razões históricas e numa identidade política própria inquestionável. Mas é também um facto que a razão egoísta de que falava é cada vez mais percetível e tem sido o fator que tem feito crescer o movimento pró-independência. A Escócia não quer partilhar com o resto da União os vastíssimos recursos petrolíferos que a elevam a 1º produtor de petróleo da União Europeia. A Catalunha enquanto 2ª ou3ª Comunidade mais rica de Espanha, quer evitar uma transferência liquida de salvo erro 6.000 milhões de euros das suas receitas para o orçamento do Estado Espanhol, receitas que são fundamentais para auxiliar as Regiões espanholas mais carenciadas, situação que não se coloca no País Basco em que este, apesar de ser o território mais rico de Espanha conserva para si a totalidade das suas receitas próprias. Já a rica Flandres que conheceu um inegável surto de prosperidade nas últimas décadas não deseja contribuir para a agora mais empobrecida Valónia, territórios que juntamente com Bruxelas e uma pequena Comunidade de língua alemã formam o Reino da Bélgica. Quanto à Padania, expressão do rico norte Italiano, tem alergia ao facto de contribuir para os “preguiçosos” do sul. Onde já ouvimos este discurso? Não foi na boca da Srª Merkel?

De certa forma as mesmas razões que levaram a rica Noruega e em menor medida a rica Suíça a dizerem não à sua entrada na U.E. explica o crescimento do movimento pró-independência nos territórios referidos. Ou seja, o movimento separatista na U.E. regista crescimento apenas em territórios prósperos onde existem condições para caminharem agora por si próprios.

E já nos questionámos sobre o impacto destas possíveis separações sobre as restantes Regiões que compõem o mesmo espaço Nacional. Imaginemos que a Madeira era uma Comunidade Autónoma espanhola e a que a Catalunha tornava-se independente. Consequência imediata: o Estado espanhol teria menos condições e meios para ser solidário com a Madeira porque a Catalunha deixava de ser seu contribuinte líquido.

Por outro lado, não me parece que a Madeira, ao contrário dos territórios referidos, tenha condições e uma economia que lhe permita caminhar sozinha a não ser que nos saísse a lotaria do petróleo. Embora também seja de considerar, que uma hipotética independência, pudesse dar à Madeira mais liberdade para trilhar caminhos de prosperidade, utilizando por exemplo o instrumento da competitividade fiscal. Mas atenção, a independência não seria um mar de rosas. Dela resultariam desafios enormes, que me dispenso de os enumerar, por agora, e para os quais entendo não estarmos preparados. Ou seja, os custos seriam maiores que os benefícios, para além do risco considerável de entrarmos num processo de africanização.

Como deixei claro, não há assuntos tabu e a vontade dos povos tem de ser soberana e escrupulosamente respeitada. Mas quando analisarmos estes assuntos não nos foquemos apenas na parte que nos interessa.

Sérgio Marques