A política cultural implementada por Paulo Cunha e Silva na Câmara Municipal do Porto (CMP) deveria ser um exemplo para todo o país. Baseada na ideia da cidade líquida, de Zygmunt Bauman – ler “Confiança e Medo na Cidade” – pretende que o maior palco do Porto seja a própria cidade, promovendo assim as experiências de partilha que permitam combater os medos que a nova modernidade líquida induz, evitando a procura, cada vez mais comum, por parte dos cidadãos, das “ilhas de semelhança e de igualdade no meio do mar da diversidade e da diferença”, como escreveu Bauman na obra citada.

Traduzindo por miúdos, aquilo que a CMP tem feito é utilizar todo o espaço urbano como palco para práticas culturais de qualidade. O “D’Bandada” foi o exemplo mais recente. Incluiu a utilização de 19 locais na zona histórica do Porto, entre praças, cafés, bares, associações e até um eléctrico e um varandim da Torre dos Clérigos. Integrou 62 concertos, aos quais assistiram mais de 250 mil pessoas. O “D’Bandada” seria um ato isolado se não tivesse como base a questão estratégica acima definida e se, como é óbvio, não tivesse continuidade.

Em Lisboa, sem Bauman tão presente, a prática é semelhante. No Verão, são às centenas os espetáculos de rua, que percorrem o espaço urbano, num processo de democratização do acesso à cultura e às práticas culturais e de aproximação entre o criador e o público (que hoje não é só consumidor). O “Out Jazz” e o “Lisboa na Rua”, que conjuga cinema, música e artes performativas são bons exemplos. Do Torel ao Intendente, do Chiado à Expo e ao Parque das Conchas, é quase impossível não deparar com qualquer coisa a acontecer. “Qualquer coisa” normalmente de qualidade, porque essa é outra questão. É importante trazer qualidade para o palco urbano.

O Funchal teria excelentes condições para seguir esta estratégia, mas não o faz - por exemplo, o Funchal Jazz poderia ter dado o mote, mas apostou-se em replicar o formato. Tudo porque nas questões da cultura, a atual vereação fica muito aquém das expectativas, não se notando qualquer alteração estratégica ao modelo anterior, que tanto criticara. Ser mais transparente (ou vender mais transparência) é relevante, mas não chega, quando a visão sobre cultura e sobre a gestão da cultura na cidade não muda.

Pode contrapor-se àquilo que escrevo o facto de existirem muitas coisas a acontecer em espaço público, no Funchal, ao longo do ano, a maioria delas organizadas pela Secretaria Regional do Turismo e que por isso se destinam, essencialmente, a públicos externos. Mas não é sobre isso que escrevo. Escrevo sobre outras coisas, sobre eventos que permitam uma democratização do acesso a novas práticas culturais e que possibilitem o alavancar a economia da cidade (sobretudo de zonas mais deprimidas) através da descentralização. Sobre a extraordinária montra em que o espaço público se poderia transformar, para criadores locais e sobre as possibilidades de partilha que oferece. Escrevo, em resumo, sobre a possibilidade de melhorar a qualidade de vida de quem escolheu o Funchal para viver, sendo que para isso, é preciso uma estratégia. Esta ou qualquer outra.

Gonçalo Santos