A crise económica e social é a que mais nos tem preocupado. No entanto, assistimos nos últimos tempos a outra, provavelmente mais complexa, a crise de valores. Seja no sector empresarial, político ou até religioso, esta perturbação tem contribuído para confundir os cidadãos e toda a comunidade em geral, criando uma crise de identidade e abalando as crenças nas diferentes instituições, que deveriam ser o fiel depositante das aspirações individuais. Este contexto dá-nos a sensação de vivermos em pequenos “reinos” onde as vontades próprias se sobrepõem à vontade e interesses colectivos, capitulando a esperança no amanhã, como direito fundamental do homem nas democracias do sec. XXI. Residimos em sociedades cinzentas, assentes num pensamento flexível em que as entidades são fluidas, as solidariedades passageiras e as convicções vão cedendo o seu lugar às opiniões de ocasião e a desgarrados pontos de vista, onde todos os actos e palavras são analisados minuciosamente pelos cidadãos. Estes são cada vez mais implacáveis. Têm expectativas muito elevadas e exigem respostas céleres. Vivemos no que John Naisbitt chamou de um “mundo afogado em detalhes, mas faminto de conhecimento”. Nesta nova realidade, uma das questões actuais mais difundidas é a da urgência de uma ética, confiança, tolerância e exemplo como pilares de toda a relação social, de todo o compromisso público. Deverá existir uma cultura da tolerância que permita o plural, a coexistência pacífica e a comunicação, como capacidades para resolver as diferenças, gerando atitudes saudáveis e profícuas. Presentemente, a política, cada vez mais, da ordem do “estar”, parece assumir uma dimensão pessoal, circunstancial e, por vezes, radical, distante da realidade social. Esta circunstância não diferencia, não credibiliza e é demonstrativa da falta de ideias com valor e de alternativas sustentadas. Porém, não devemos ser derrotistas nesta tentativa de compreensão da nossa realidade e de pensar neste nosso tempo. É bem verdade que vivemos tempos de algum desencanto, num estado de carência que já nem as ideologias políticas conseguem preencher. Por isso, a importância de percebermos que temos que afirmar o tempo de uma nova geração, de um novo design do pensamento político e de uma nova engenharia social. Assim, temos que assumir com arrojo e ousadia que existe uma geração capaz de fazer diferente. Num tempo de grandes contendas e desilusões a confiança é indispensável para o êxito.
Jorge Carvalho