A escola é o centro da minha vida desde que me lembro. Quando deixei a escola como aluna – cheia de cicatrizes mas inspirada por bons mestres – e retornei como professora, carregava muitas expectativas: algumas eram da massa com que se empurra a vida, utópicas e líricas, e outras tinham sido construídas no trabalho e na formação para o ofício e completavam as primeiras. Mais de vinte anos se passaram e continuo a carregá-las todas, agora já acrescidas pelo peso da experiência e do seu preço. Acredito que a escola é o espaço privilegiado de crescimento e desenvolvimento das crianças e dos jovens. É-o, por excelência, porque ali se cruzam e enlaçam, para o melhor e para o pior, todas as realidades de que cada criança e jovem é testemunha. Ali cada um, na sua riqueza e complexidade, se vai construindo. A escola nasceu da necessidade de formalizar e regular a aprendizagem e a formação dos mais jovens e com o tempo foi dando expressão e significado ao conceito Educação como responsabilidade colectiva e compromisso com o futuro. Sendo uma instituição relativamente recente e a que só tem acesso a totalidade dos cidadãos há bem pouco tempo, percebe-se a sua importância para o poder. A cada projecto ideológico correspondem determinadas intervenções. Em termos simplistas, é mais ou menos assim: se o caminho é o da Democracia, valoriza-se a escola pública garantindo-lhe a qualidade do serviço que presta a todos; se o caminho é o do autoritarismo de uma elite, corta-se o financiamento ao serviço público, criam-se obstáculos (materiais, humanos, organizacionais) para promover o insucesso, onera-se as famílias, penaliza-se o que não é normalizado e canalizam-se investimentos para o privado. Na Madeira as aparências iludem, aos anos de investimento na Educação com a indispensável substituição das “escolas barracão”, recrutamento de recursos humanos e alargamento e diversificação de ofertas, sucede-se o tempo do “salve-se quem puder”. Em cada escola, faz-se o melhor que se sabe e se pode para prosseguir no compromisso de prestar um serviço de qualidade mas os entraves são cada vez maiores e cada vez mais difíceis de vencer: falta quase tudo. Todos os dias professores e pessoal não-docente dão o melhor para conseguir “omeletes sem ovos” mas há preocupantes sinais de desgaste. Se queremos o caminho da justiça social e da liberdade temos de lutar por uma escola pública democrática de qualidade para todos, uma responsabilidade colectiva e um compromisso com o futuro. Bom ano!

Isabel Cardoso Professora