O interesse crescente pelas actividades ao ar livre, de carácter lúdico ou na vertente desportiva, incluindo a competição, tem ajudado a evidenciar o enorme potencial das áreas protegidas enquanto locais com uma vocação muito maior do que a conservação da natureza. Por defeito, as áreas protegidas encerram um conjunto de características muito atractivas para uma série de “novas” modalidades desportivas e de lazer que se vêm juntar às tradicionais caminhadas, montanhismo, alpinismo e o próprio campismo. Hoje, um pouco por todo o mundo, o downhill, BTT, parapente, canyoning, trekking, trail e outras actividades com maior ou menor massificação fazem parte do quotidiano dos espaços naturais e em particular das áreas protegidas. É enorme, e justificado, o entusiasmo com que locais e visitantes se empenham nestas actividades as quais, por sua vez, geram um vasto conjunto de oportunidades no sector do turismo e serviços que vão muito para além do alojamento e restauração. O fabrico e manutenção de equipamentos e acessórios de apoio às diferentes modalidades, a logística, a promoção, o marketing, gestão, informação e comunicação são apenas exemplos que resultam dessas actividades, geradoras de actividade económica, e emprego, com a particularidade de este ser geralmente qualificado. Também não é menor o contributo que estas actividades trazem ao nível da divulgação e promoção de destinos turísticos e, se bem desenvolvidas, e à escala adequada, à própria conservação da natureza e biodiversidade dos espaços onde ocorrem. Não restam dúvidas que estamos perante uma autêntica alteração de paradigma, geradora de oportunidades que devem ser agarradas o mais cedo possível, de forma consciente, inteligente e sustentável. Nesse sentido, e porque a conservação e uso sustentável dos recursos naturais dependem de muitas variáveis, torna-se fundamental que se introduza a dimensão conhecimento na gestão deste recurso ambiental de elevado valor económico sob pena de uma gestão casuística poder não ser capaz de considerar variáveis fundamentais. Questões como capacidade de carga, aptidão e gestão integrada, compatibilização de usos no espaço e no tempo, devem fazer parte do enquadramento e promoção do desporto na natureza, em especial nas áreas protegidas. Daí que as cartas de aptidão desportiva das áreas protegidas, tal como preconizado pela legislação nacional desde 1999, possam, e devam, constituir um instrumento precioso na gestão destas áreas e das actividades nelas desenvolvidas, concertando e compatibilizando os múltiplos interesses e partes envolvidas em torno de objectivos comuns. Tratando-se de uma nova realidade, não deixa de se aplicar um velho ditado: mais vale prevenir que remediar. Antecipar cenários, envolver stakeholders, prevenir conflitos, partilhar informações, responsabilidades, valores e preocupações, identificar prioridades e condições necessárias para uma gestão duradoura seria o resultado desse exercício que urge fazer.
António Domingos Abreu