“É preciso ter um coração muito forte para se viver numa ilha. É mais difícil”, palavras de José Tolentino Mendonça sobre a asfixia que é viver numa ilha. Falava desta sua ilha, a Madeira, “uma espécie de cosmo pequeno onde podemos ver todas as coisas”. E estamos a ver coisas nunca vistas, pelos olhos mas também pela memória. Novos tempos, únicos, de transformação.

Ainda esta semana ao descer para a cidade, por entre pessoas que conheço e que todos reconhecem, porque a cidade tem as suas personagens, e é destas pessoas que se faz a cidade, figuras da cultura popular, emblemáticas, por um ou outro motivo, pensava que há um ano atrás conheci-as mais eu a elas do que elas a mim.

Estávamos em campanha eleitoral e era eu um desconhecido que aparecia nos cartazes. É curiosa a forma como muitos destas pessoas veem a política e interpretam os factos políticos. Não eram, nem são comentadores televisivos, e apesar de terem um sentido muito pragmático, não ligando a valores abstractos como a democracia, querendo apenas saber o que ganham votando em fulano ou beltrano, vislumbram tudo o que se passa.

Identificam a neblina, típica do nosso tempo de capacete, a tal neblina que aqui na Madeira faz parte da verdade. E falam dela com cada vez mais desinibição, não só pela mudança ocorrida nas eleições autárquicas como pela implosão que se verifica no PSD-M.

É o ponto sem retorno onde nos encontramos. Vejamos o percurso até aqui. Depois da democratização do país e da chegada da Autonomia, parece que se ergueram os velhos capitães donatários, uma espécie de aristocracia, que passou a ocupar os cargos públicos dados pelo novo regime. Foi assim que regressou uma espécie de mentalidade senhorial de outros tempos.

A relação com o dinheiro também se pareceu muito com a de uma nobreza em decadência: gastamos porque somos grandes. Grandes mas sem ideias. Uma casta que se considerava insuperável e que se limitava a repetir os postulados da sua grandeza. Foram demasiados anos em que o PSD-M respondeu perante o eleitorado pela “obra feita” e não pelos impostos e custos necessários para liquidar as correspondentes faturas. A verdade nua e crua: cada vez que se aumentava o endividamento, aumentava-se a as hipóteses de reeleição.

É por isso que o problema da nossa Região não é a ocultação de dívidas, e faz hoje três anos que o país despertou para o buraco das contas da Região, pois esse é um problema relacionado com a deficiente fiscalização das instituições, mas sim político, da forma como se exerceu o poder e como as populações viam a ação de quem governava, sem terem a percepção de que a realização de uma certa despesa pública implicava um custo em impostos futuros. Não que determinadas obras não fossem necessárias, mas muitas delas foram feitas sem um modelo de desenvolvimento como suporte e sem qualquer sustentabilidade.

A saída passa por aqueles que vierem a ser parte do futuro governo da Região serem humildemente pessoas e não aristocratas, e cada cidadão tomar de assalto a Bastilha de si mesmo e transformar-se na mudança. Tomar posição para que outros não a tomem por nós. Até podemos dar um passo atrás para avançar dois, o que não podemos é andar em círculos.

Daí que muito me admira ver estes candidatos a líderes do PSD-M, todos eles comprometidos com o passado que nos trouxe a este triste presente, que têm ou tiveram o poder, e que sendo culpados do estado a que isto chegou, querem ser a solução para os problemas que criaram. É como se acreditássemos que um talhante pudesse ser vegetariano. Não nos podemos livrar de uma inutilidade e não nos livrarmos dos problemas. É caso para citar António Aleixo, “Vós que lá do vosso império prometeis um mundo novo, calai-vos, que pode o povo qu’rer um mundo novo a sério.”

Paulo Cafôfo