Democracia definida de uma forma sucinta, é a forma de governo em que em que todos os cidadãos elegíveis participam igual e livremente na escolha dos seus representantes, que farão e aprovarão as leis que a todos regem e que em nosso nome escolherão quem governará o país. O conceito nasceu na Grécia no século V a.C. Sem sombra de dúvida representou um notável progresso em relação às demais formas de governo até aí existentes, embora sofresse de enfermidade inata de representar apenas os cidadãos, que eram, grosso modo, apenas cerca de 20% da população. Os cidadãos eram apenas homens, filhos de pai e mãe atenienses, livres e maiores de idade. Da cidadania/democracia estavam excluídas todas as mulheres, os não nascidos de pai e mãe atenienses e todos os escravos. Em suma, valia apenas para um grupo restrito de pessoas. Com os avanços civilizacionais, o conceito estendeu-se e passou a abranger todos os cidadãos adultos, através de sufrágio universal, contudo esta abrangência é apenas formal, pois na realidade continua a funcionar apenas para uma elite restrita que a captura e instrumentaliza para seu próprio proveito. Quem manda é quem tem dinheiro, as pessoas elegem as listas propostas pelos secretários gerais dos partidos, servindo interesses específicos, em tudo diferentes dos que eram supostos servir. Recentemente veio a público que 25 Ministros e Secretários de Estado ao longo de 19 governos, passaram pelo BES. Quantos mais terão passado por outras organizações semelhantes, desde a Mota-Engil à Lusoponte? O poder económico estende a rede de influência aos governantes numa relação simbiótica mutuamente vantajosa. Subsidias-me, pagas-me as campanhas para eu me eleger e aos meus amigos, arranjas-me um lugarzinho de administrador numa das tuas empresas para mim e para os meus amigos quando cessarmos funções, em contrapartida desenho umas leis à tua medida, olho para o lado quando em representação do país negociar umas PPP’s ou uma Swaps, como quem não quer a coisa baldo-te umas adjudicaçõezitas, faço-me esquecido e não te exijo as contrapartidas combinadas, arranjo-te, já agora uma isençãozita de impostos, etc. Para me ajudar nessas tarefas, já agora, escolho para meu secretário de estado, aquele rapaz teu colaborador, assim ficas com a certeza de que a minha parte do acordo fica cumprida. Fazes um bom negócio ao investir em mim, calcula bem o valor que terá para ti o network que criei quando estive no governo. Para pilotar um barco ou conduzir um carro é obrigatória uma licença, para a obtenção da qual é necessária uma comprovação de conhecimento. Para se escolher o destino de todos nós, para se ser eleitor, contudo, não é necessário ser-se cidadão, não é exigido entender minimamente o mundo que nos rodeia, conhecer um pouco de história, ter um pouco de memória para recordar as promessas e compará-las com os atos, saber descortinar a realidade por detrás de toda a propaganda e contra informação lançada por órgãos de comunicação social que é suposto ser um dos pilares da democracia, quando livre e independente. O problema está em que não o é efetivamente, pois, na sua generalidade, é detida pelo poder económico, utilizada com o propósito estudado e pensado de desviar a atenção das situações que afetam as pessoas, suas causas e consequências. O Importante é mesmo o Cristiano Ronaldo e a mãe Coragem (Hoje dia 3, li no DN-M, nas cartas do leitor alguém referir-se a C.R. utilizando a palavra “elevá-LO”, o mesmo “LO”, que se utiliza exclusivamente quando de faz referência a Deus) . Um exercício com alguma graça, consiste em analisar as diferentes intervenções dos vários comentadores e veiculá-las aos interesses que sem assumirem servem. Não me merece o mínimo reparo os que de uma forma assumida e clara defendem interesses específicos e onde se sabe quem é que defende. Afirmações como a recente de Passos Coelho de que “este ano não haverá aumento de impostos”, forma de comunicação capciosa que, ao ligar ano a aumento de impostos, induz em erro as pessoas levando-as a crer que o espaço temporal será de um ano, escondendo que neste ano restam apenas três meses. Quantos eleitores estarão em condições de descodificar esta afirmação? Quantos comentadores prestaram esse serviço? As pessoas dum modo geral, têm da política uma “visão folclórica”, limitando-se na melhor das hipóteses a cumprir a liturgia do voto. Não sentem minimamente que tenha nada a ver com eles, achando, pelo contrário, que não é da sua conta, até porque não gostam de política. Enquanto esta situação se mantiver a democracia será apenas para os ricos e poderosos que dela se servirão a seu bel-prazer.

Helder Melim