
Segundo os últimos dados, inscreveram-se para as 'primárias' do PS quase 150 mil simpatizantes do partido. Um número muito superior ao de militantes que andará nos 90 mil. Na Madeira foram mais de mil os não-sócios que aceitaram o desafio de participar na escolha do candidato a primeiro-ministro a apresentar pelos socialistas. Para primeira vez, parece um número muito bom. Desde logo uma meia vitória para quem defendeu este modelo copiado do sistema norte-americano, onde há 'primárias' para tudo e os partidos não têm grande peso nas escolhas. O modelo tem virtudes, mas também defeitos. E muitos. A secundarização dos militantes, que estão em clara minoria na escolha do candidato a primeiro-ministro, pode ter como consequência o esvaziamento da participação, deixando as máquinas partidárias praticamente em roda-livre. A Democracia necessita dos partidos, não consegue sobreviver sem o diálogo e confronto entre forças políticas e este modelo de ingerência assumida poder ser perigoso. Mas há vantagens, claro. Desde logo a participação de muita gente que nunca teve coragem para ser militante, preferia ser treinador de bancada e agora tem a oportunidade de corrigir todos esses anos em que foi simples observador. E nem tem de pagar quotas. E é precisamente o termo 'simpatizante' que traz todas as vantagens ao modelo. Como já escrevi neste espaço, há enormes diferenças entre um militante e um adepto ou sócio de um clube. O primeiro só pensa nos seus interesses dentro da estrutura, o segundo pensa nos interesses dessa estrutura que apoia. O simpatizante vai escolher aquele que considera ser o melhor para o partido ganhar eleições e o que tem melhor perfil para governar. O militante escolhe o que é apoiado pelo presidente da sua concelhia, que é apoiado pelo presidente da sua comissão de freguesia e que lhe prometeu um lugar de terceiro vogal suplente no núcleo do seu bairro. É por isso que é ridículo tentar extrapolar os resultados das eleições para as federações do PS para as 'primárias'. Nessas eleições internas, votaram os militantes e, sobretudo, os rapazes da máquina. E foram menos de 20 mil. Todos juntos, nem dão luta a um terço dos simpatizantes. Por isso, estas eleições primárias podem ser um marco na política portuguesa. Pela primeira vez, um partido arrisca-se a escolher o líder que o povo quer e em quem vota e não o que a máquina do partido – a que está no poder ou a que se lhe opõe – produziu. P.S. - Alguém devia dizer a certos candidatos à liderança do PSD-M que nesse partido não há primárias e, por isso, de pouco vale falar para o povo, mostrar obras que a inaugurar dentro de anos, porque o povo não vota. Nesse caso, são só os militantes. Mas também era interessante ver umas 'primárias' laranja...