José Luís Cardoso Os senadores (e as senadoras, claro), tal como os (as) filósofos (as) e intelectuais em geral podem ser importantes para a tomada de consciência e motivação de uma nação, sobretudo em tempo de crise e desorientação. António Barreto (AB) poderia sê-lo. Tem currículo, tem a pose, o “ar” e é tratado na comunicação social como tal. Basta ver como Ana Lourenço o venera na SIC, considerando sempre um “luxo” a sua presença. Mas para se ser um verdadeiro senador (que não de “panache”) é preciso mais do que um ar patriarcal, quase bíblico, de quem só diz verdades e se desaponta muito com a actuação dos políticos em geral, classe à qual parece não ter pertencido. As qualidades que devemos reconhecer num senador não diferem muito das que esperamos de um político. Destaco a lucidez, a honestidade intelectual e a coragem. AB tem um trabalho meritório na Fundação Manuel dos Santos. Tem o privilégio e a vantagem do acesso a dados estatísticos tratados que permitem um conhecimento mais rigoroso da sociedade portuguesa. Destaque-se o debate sobre a Europa, tema que estava totalmente ausente da agenda portuguesa. Infelizmente, as tomadas de posição públicas de AB não reflectem aquele trabalho de análise. Tomemos como exemplo Adriano Moreira. Embora também não o assuma, como todos, é um senador. Quase improvável, por razões históricas e curriculares, mas é. Lúcido, isento, sem agendas pessoais, sem preconceitos e denunciando com coragem a incompetência e a via liberal para o empobrecimento do país. Como é possível que António Barreto esteja hoje muito mais longe da social-democracia do que Adriano Moreira? O contributo de AB para a motivação do país acaba por ser comparável, por exígua, à de outros “promotores” de think tanks como Augusto Mateus ou Proença de Carvalho. AB tem um ideário, plasmado no célebre discurso do 10 de Junho de 2011 e nas múltiplas intervenções na SIC. Acredita na teoria da “culpa” e da “redenção” do povo português. Acha que os credores não têm obrigação de sustentar os nossos vícios. Apostou em Passos Coelho e ficou refém dessa aposta. Defende-o até ao limite do impensável, sempre com o argumento “imbatível” de que “não era possível outra solução”. Aceita, portanto, o empobrecimento de Portugal (tolerando a violência e a miséria para muitas famílias) como o preço inevitável a pagar para a redenção e a recuperação do país.