Eu sei que o assunto é recorrente, que já quase não surpreende ninguém, que falar disto até parece inveja. Que seja! Mas não consigo ficar indiferente à indiferença com que tanta gente de bem desta terra convive com o gozo do presidente do Governo. Gozo sim, porque só pode estar a gozar quem nos governa desta maneira. Não vejo outra forma de classificar a acção de um presidente do Governo Regional que descaradamente passa a vida a passear como nenhum outro agente político deste país. Acredito que nem mesmo o secretário de Estado das Comunidades, nem o ministro dos Negócios Estrangeiros viajam tanto como o chefe da Quinta Vigia. E certamente nenhum outro político dessa Europa, que tão bem conhece Jardim, fica tanto tempo fora. A questão aqui nem é estar fora, nem é viajar muito, nem é ganhar ajudas de custo e outras mordomias. O essencial aqui é a forma despudorada com que sua excelência se mete no avião para ir não se sabe onde, fazer não se sabe o quê, com não se sabe exactamente quem e muito menos para quê. Mas todos sabemos uma coisa: este mistério, mais próprio de uma jovem tribo africana, tem custos para os contribuintes, directa ou indirectamente. Mesmo com viagens pagas pelos organismos europeus, a verdade é que pagamos a um presidente que não preside. Há anos que é assim, que se demitiu de tudo menos da passeata que tem uma ridícula, para não dizer pornográfica, periodicidade de quase uma semana por cada mês. Quem é capaz de se dar ao luxo de passar tanto tempo fora em viagens secretas num tempo de agruras para muitas famílias, quem brinca assim à governação que esconde dívidas, quem esbanja assim quando apela ao investimento das empresas, quem mostra tanto desprezo pelos seus revela uma enorme falta de respeito. Sobretudo para os que nele acreditaram e ainda acreditam. Sobretudo para os seus eleitores, os seus secretários, os seus directores, os seus apoiantes e militantes. A todos eles, Jardim deixa um recado claro em cada viagem: amanhem-se, desenrasquem-se e aturem-se uns aos outros que eu vou ali e já venho. E a pouca-vergonha continua. Mês após mês, viagem após viagem, segredo após segredo. E o povo, como é sereno, paga. Paga e cala e consente. E muitos ainda aplaudem. Mesmo os que sabem que a viagem desta semana aconteceu poucos dias depois de três semanas de férias na casa do Governo no Porto Santo, numa estada alegadamente paga mas a preço de parque de campismo. Espero que a História seja fiel a essa faceta do presidente que governa em modo ‘caixeiro viajante’. E que reserve uma nota de rodapé sobre os madeirenses, como eu e muitos outros, que sentem vergonha deste abuso e descaramento.